Ventosaterapia na Recuperação Pós-Exercício: Uma Análise Técnica para Profissionais de Saúde
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

A Dor Muscular de Início Tardio (DOMS) é uma consequência fisiológica comum após exercícios intensos ou não habituais, impactando diretamente o desempenho e a continuidade do treinamento de atletas e indivíduos ativos. Como profissionais que lidam com a reabilitação e a medicina esportiva, a exploração de terapias eficazes para acelerar a recuperação é um pilar da nossa prática. A ventosaterapia, com suas raízes na medicina tradicional, ressurge com um crescente corpo de evidências que suportam sua aplicação no manejo da DOMS.
Este artigo aprofunda, sob uma ótica técnica, os mecanismos de ação que validam o uso da ventosaterapia, integrando achados de estudos recentes.
A Fisiopatologia da DOMS
A DOMS resulta de microlesões nas fibras musculares (especialmente nas linhas-Z dos sarcômeros) e no tecido conjuntivo. Este dano inicial desencadeia uma resposta inflamatória aguda, caracterizada por:
Dano Estrutural e Enzimático: A lesão mecânica eleva os níveis séricos de marcadores de dano muscular, como a Creatina Quinase (CK) e a Lactato Desidrogenase (LDH).
Resposta Inflamatória: Ocorre a migração de células inflamatórias (neutrófilos e macrófagos) para o local, com subsequente liberação de citocinas pró-inflamatórias, como a Interleucina-6 (IL-6) e o Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α).
Estresse Oxidativo e Dor: A cascata inflamatória aumenta a produção de espécies reativas de oxigênio e sensibiliza nociceptores, resultando na percepção de dor, rigidez e edema.
Mecanismos de Ação da Ventosaterapia na DOMS
A aplicação de ventosas gera uma pressão negativa que traciona a pele e os tecidos subjacentes. Essa ação mecânica é o gatilho para uma série de respostas fisiológicas benéficas. Os artigos analisados (Ekrami et al., 2021; Lu et al., 2025) reforçam e expandem nosso entendimento sobre esses mecanismos.
1. Modulação da Resposta Inflamatória e Imunológica
A ventosaterapia demonstra um claro efeito anti-inflamatório. O estudo de Ekrami et al. (2021), realizado com atletas de artes marciais, mostrou que a ventosaterapia úmida (wet cupping) foi capaz de atenuar o aumento de marcadores inflamatórios como IL-6 e TNF-α após exercício vigoroso.
A Teoria do Óxido Nítrico (NO): Acredita-se que a sucção estimule a liberação de óxido nítrico pelas células endoteliais. O NO é um potente vasodilatador que melhora a perfusão sanguínea e possui efeitos imunomoduladores, contribuindo para a resolução do processo inflamatório.
Teoria da Ativação do Sistema Imune: A aplicação da ventosa pode ser interpretada pelo corpo como um "estresse localizado", que ativa o sistema complemento e modula a função imune de forma a acelerar a homeostase tecidual.
2. Efeitos Neurofisiológicos e Autonômicos
A influência sobre o sistema nervoso é um dos mecanismos mais relevantes.
Teoria das Comportas da Dor: A estimulação tátil intensa ativa fibras nervosas Aβ, que inibem a transmissão de sinais de dor (conduzidos por fibras Aδ e C) no corno dorsal da medula.
Modulação do Sistema Nervoso Autônomo (SNA): O estudo de Lu et al. (2025) com atletas de taekwondo demonstrou que a ventosaterapia a seco (dry cupping) aplicada após o treino aumentou a atividade parassimpática, evidenciada pelo aumento da Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), especificamente nos componentes de alta frequência (HF). Isso indica uma recuperação autonôminca mais rápida e eficiente, diminuindo o estado de "luta ou fuga" e promovendo o relaxamento. Além disso, a percepção de esforço (RPE) foi significativamente menor no grupo que recebeu a ventosaterapia.
3. Aumento da Perfusão Sanguínea e Drenagem Linfática
A pressão negativa causa vasodilatação e um aumento controlado da permeabilidade capilar.
Hiperemia Terapêutica: Aumenta o fluxo sanguíneo local, acelerando o aporte de oxigênio e nutrientes essenciais para o reparo das fibras musculares.
Teoria da Desintoxicação do Sangue: O aumento da circulação facilita a remoção de metabólitos da dor (ex: bradicinina) e resíduos do processo inflamatório, como células danificadas e mediadores químicos.
4. Descompressão Mecânica Miofascial
A tração vertical dos tecidos promovida pela ventosa cria espaço entre a pele, a fáscia e o músculo. Esta descompressão mecânica alivia a pressão sobre os nociceptores e pode liberar aderências fasciais, restaurando a mobilidade e reduzindo a rigidez.
Conclusão Clínica
A integração dos achados dos estudos de Ekrami et al. (2021) e Lu et al. (2025) solidifica a base de evidências para o uso da ventosaterapia na recuperação esportiva. A técnica não apenas atua localmente na dor e na inflamação, mas também promove uma resposta sistêmica via modulação do sistema nervoso autônomo.Para nós, profissionais da saúde, a ventosaterapia se firma como uma intervenção não-farmacológica valiosa, capaz de reduzir a dor, atenuar a resposta inflamatória e acelerar a recuperação autonômica pós-exercício. Sua aplicação pode otimizar os planos de reabilitação e melhorar o desempenho de nossos pacientes e atletas.
Referências Bibliográficas
EKRAMI, N.; AHMADIAN, M.; NOURSHAHI, M.; SHAKOURI G., H. Wet-cupping induces anti-inflammatory action in response to vigorous exercise among martial arts athletes: A pilot study. Complementary Therapies in Medicine, v. 56, 102611, 2021.
LU, Y.-C. et al. Posttraining dry cupping treatment elevates heart rate variability in elite taekwondo athletes: A randomized controlled trial. Journal of Physiological Investigation, v. 68, n. 2, p. 87-93, 2025.
MOURA, C. C. et al. A eficácia da ventosaterapia no tratamento da dor lombar crônica: uma revisão sistemática. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 26, e3094, 2018.



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