Ventosaterapia para Síndrome Dolorosa Miofascial: Uma Abordagem Descompressiva para Pontos-Gatilho
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
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A Síndrome Dolorosa Miofascial (SDM) representa um desafio clínico significativo, sendo uma das causas mais comuns de dor musculoesquelética. Sua marca registrada é a presença de pontos-gatilho (PGs) — nódulos tensos e hipersensíveis no tecido muscular que causam dor local e referida. Enquanto abordagens compressivas, como a terapia manual, são amplamente utilizadas, os estudos em anexo fornecem suporte para uma técnica com um paradigma oposto e complementar: a ventosaterapia, uma abordagem descompressiva para o tratamento de PGs.
A Atuação da Ventosaterapia na Fisiopatologia do Ponto-Gatilho
Os artigos analisados, como o estudo de Chiu et al. (2020), reforçam que a eficácia da ventosaterapia na SDM pode ser atribuída à sua capacidade de interromper o ciclo vicioso que define um ponto-gatilho: a crise energética local. A técnica atua em frentes cruciais:
Ação Mecânica Descompressiva e Melhora da Complacência Tecidual: Diferente da pressão direta, a ventosaterapia utiliza pressão negativa para levantar a pele e os tecidos subjacentes. Conforme demonstrado por Warren et al. (2020), essa descompressão promove a liberação de aderências fasciais e alonga mecanicamente as fibras musculares contraídas no PG. O estudo de Chiu et al. (2020) investiga essa ação de forma quantitativa, mostrando que a aplicação da ventosa altera a complacência do tecido mole, ou seja, sua capacidade de se deformar sob pressão. Em tecidos com pontos-gatilho, essa complacência é menor, e o tratamento com ventosaterapia demonstrou melhorar objetivamente essa propriedade, aproximando-a da de um tecido saudável.
Restauração da Microcirculação e "Efeito de Lavagem": A sucção provoca uma hiperemia local intensa, aumentando a perfusão sanguínea. Esse processo é vital para combater a hipóxia e a isquemia que caracterizam um PG, além de promover um "efeito de lavagem" (washout) que remove os metabólitos algogênicos (substâncias que causam dor) acumulados na região.
Modulação Neurofisiológica da Dor: A forte estimulação sensorial da ventosa pode ativar a "Teoria das Comportas", inibindo a transmissão de sinais de dor ao sistema nervoso central. Além disso, a resposta inflamatória controlada (equimose) demonstrou modular vias anti-inflamatórias endógenas, contribuindo para uma dessensibilização mais duradoura.
Evidências dos Estudos
A literatura fornecida sustenta a aplicação da ventosaterapia na SDM:
O estudo de Chiu et al. (2020), realizado com atletas com SDM, não só mostrou melhora na função do ombro e membro superior após um programa de 4 semanas de ventosaterapia, como também introduziu um método para quantificar a melhora na complacência do tecido.
Toufayli et al. (2025), em seu ensaio clínico, concluiu que a ventosaterapia seca, por si só, é eficaz para melhorar a dor, a amplitude de movimento cervical e a capacidade funcional em pacientes com pontos-gatilho no trapézio.
Sajedi et al. (2022) comparou a ventosaterapia com a laser-acupuntura para SDM na face e descobriu que, embora ambas as técnicas fossem eficazes, a ventosaterapia promoveu uma redução significativamente mais rápida na dor e no número de pontos-gatilho nas sessões iniciais.
A revisão de Charles et al. (2019), embora aponte para a necessidade de mais estudos de alta qualidade, reconhece a ventosaterapia como uma modalidade de tratamento para a SDM, destacando as pesquisas existentes.
Por fim, Warren et al. (2020), ao comparar a descompressão miofascial (ventosaterapia) com a liberação auto-miofascial (rolo de espuma), observou que os pacientes perceberam um benefício terapêutico significativamente maior (Global Rating of Change) com a ventosaterapia.
Conclusão: Uma Ferramenta Integrativa Baseada em Evidências
Com base nos estudos analisados, a ventosaterapia emerge como uma intervenção valiosa para a Síndrome Dolorosa Miofascial. Sua capacidade de descomprimir tecidos, melhorar a complacência tecidual e promover um alívio rápido da dor a posiciona como um excelente recurso no plano de tratamento. Ela pode ser usada para preparar o tecido para a cinesioterapia, potencializar os efeitos de outras terapias manuais e, o mais importante, capacitar o paciente a retornar à função ativa, que é o objetivo final de qualquer programa de reabilitação.
Referências Bibliográficas
CHARLES, Derek et al. Myofascial pain and treatment: Mentored Research: Narrative Review. Journal of Bodywork & Movement Therapies, v. 23, p. 539-546, 2019.
CHIU, Yen-Chun et al. Influence of quantified dry cupping on soft tissue compliance in athletes with myofascial pain syndrome. PLOS ONE, v. 15, n. 11, e0242371, 2020.
SAJEDI, Seyed Masoud et al. Comparative Efficacy of Low-Level Laser Acupuncture and Cupping for Treatment of Patients with Myofascial Pain Dysfunction Syndrome: A Double-blinded, Randomized Clinical Trial. Galen Medical Journal, v. 11, e2305, 2022.
TOUFAYLI, Nassab et al. Effects of high-power static ultrasound combined with dry cupping therapy on pain and functional outcomes in patients with trapezius myofascial trigger points: A comparative study. Journal of Bodywork & Movement Therapies, v. 44, p. 789-796, 2025.
WARREN, Aric J. et al. Acute outcomes of myofascial decompression (cupping therapy) compared to self-myofascial release on hamstring pathology after a single treatment. The International Journal of Sports Physical Therapy, v. 15, n. 4, p. 579, 2020.



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