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Ventosaterapia no Tratamento de Cefaleias Tensional e Cervicogênica: Uma Análise dos Mecanismos de Ação e Evidências

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 30 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura
Aplicação de ventosaterapia na região do pescoço e ombros de um paciente para tratamento de cefaleia cervicogênica

A cefaleia é uma das queixas neurológicas mais prevalentes na prática clínica, com a Cefaleia do Tipo Tensional (CTT) e a Cefaleia Cervicogênica (CC) representando uma parcela significativa dos casos. Enquanto a CTT está frequentemente associada a pontos-gatilho miofasciais e estresse em músculos pericranianos, a CC origina-se de disfunções nas estruturas ósseas e tecidos moles da coluna cervical. Em meio às abordagens terapêuticas, a ventosaterapia surge como uma ferramenta complementar valiosa, e compreender seus mecanismos de ação é fundamental para sua aplicação criteriosa.


Mecanismos de Ação da Ventosaterapia na Cefaleia

A eficácia da ventosaterapia no alívio da dor, especialmente em cefaleias de origem musculoesquelética, pode ser atribuída a uma combinação de efeitos fisiológicos inter-relacionados:

  • Descompressão Miofascial e Tecidual: A pressão negativa gerada pela ventosa promove uma força de tração vertical que eleva a pele, a fáscia e as camadas musculares subjacentes. Essa descompressão reduz a tensão mecânica, melhora a mobilidade entre as camadas teciduais e pode liberar aderências fasciais que contribuem para a dor e a restrição de movimento, comuns na CC.

  • Modulação da Dor via "Teoria das Comportas": O estímulo sensorial da sucção e da pressão na pele ativa fibras nervosas de grosso calibre (A-beta). De acordo com a Teoria do Portão da Dor de Melzack e Wall, essa ativação pode inibir a transmissão de sinais nociceptivos (de dor), conduzidos por fibras de pequeno calibre (A-delta e C), no corno dorsal da medula espinhal. O resultado é uma percepção reduzida da dor.

  • Melhora da Microcirculação e Perfusão Sanguínea: A aplicação da ventosa induz uma vasodilatação local e o rompimento de capilares superficiais (equimose terapêutica). Esse processo aumenta o fluxo sanguíneo na área tratada, melhorando a oxigenação e o aporte de nutrientes, ao mesmo tempo que facilita a remoção de metabólitos algogênicos, como bradicinina, potássio e ácido lático, acumulados em tecidos isquêmicos e pontos-gatilho.

  • Efeitos Neuro-reflexos e Desativação de Pontos-Gatilho: A ventosaterapia aplicada diretamente sobre pontos-gatilho miofasciais — frequentes nos músculos trapézio superior, suboccipitais e esternocleidomastoideo, todos implicados em CTT e CC — pode ajudar a resolver a crise energética local que mantém a contração do sarcômero. A descompressão mecânica e o aumento do fluxo sanguíneo ajudam a "desativar" esses pontos, reduzindo tanto a dor local quanto o padrão de dor referida característico da cefaleia.

  • Respostas Imunológicas e Anti-inflamatórias Locais: Pesquisas sugerem que o estresse mecânico e a pequena lesão tecidual controlada pela ventosaterapia podem desencadear uma resposta imunológica localizada, modulando a expressão de citocinas e reduzindo marcadores inflamatórios. Este efeito pode ser particularmente benéfico no tratamento da dor crônica.


Evidências Clínicas e Aplicação Prática

Estudos e revisões sistemáticas têm demonstrado que a ventosaterapia, especialmente a modalidade "seca" (dry cupping), pode reduzir significativamente a intensidade e a frequência da dor em pacientes com Cefaleia Cervicogênica e Tensional crônica. A aplicação é comumente focada nos músculos da região cervical posterior, trapézio e ombros.O tratamento deve ser integrado a um plano terapêutico abrangente, que pode incluir terapia manual, exercícios de fortalecimento e alongamento, e educação do paciente. É imperativo que o profissional realize uma avaliação completa para excluir outras causas de cefaleia (red flags) e para aplicar a técnica com segurança, respeitando as contraindicações.


Conclusão

A ventosaterapia representa mais do que uma técnica tradicional; seus efeitos fisiológicos são plausíveis e alinhados ao nosso entendimento contemporâneo de dor musculoesquelética e neurofisiologia. Para o profissional de saúde, ela oferece uma abordagem não farmacológica eficaz para modular a dor, tratar disfunções miofasciais e melhorar a qualidade de vida de pacientes com cefaleias tensional e cervicogênica.


Referências Bibliográficas

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