Ventosaterapia no Manejo da Fibromialgia: Mecanismos e Evidências
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
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A fibromialgia (FM) é uma síndrome de dor crônica generalizada que representa um desafio clínico significativo. Sua natureza multifatorial, envolvendo dor, fadiga e distúrbios cognitivos, exige uma abordagem terapêutica integrada. Neste contexto, práticas complementares como a ventosaterapia ganham espaço. Este artigo revisa os mecanismos de ação propostos para a ventosaterapia e analisa as evidências científicas de sua aplicação como adjuvante no tratamento da FM.
Mecanismo de Ação: Como a Ventosaterapia Atua?
Embora a ventosaterapia seja uma prática antiga, a compreensão de seus mecanismos fisiológicos está em contínua investigação. Com base nos estudos analisados, os efeitos terapêuticos, especialmente no alívio da dor, podem ser explicados por uma combinação de teorias:
Modulação da Dor (Teoria das Comportas): A principal hipótese baseia-se na "Teoria do Controle do Portão da Dor" de Melzack e Wall. A aplicação da ventosa (seja pela sucção na técnica seca ou pelas microincisões na técnica úmida) gera um estímulo intenso nas fibras nervosas mielinizadas de grosso calibre (A-delta). Esse estímulo, ao chegar à medula espinhal, "fecha a comporta" para os sinais de dor, que são conduzidos por fibras mais lentas e finas (fibras C). Essencialmente, o estímulo tátil da ventosa sobrepõe-se e inibe a percepção do estímulo doloroso crônico da fibromialgia.
Liberação de Mediadores Bioquímicos: A aplicação da ventosaterapia, particularmente a modalidade úmida que envolve escarificação da pele, induz um trauma tecidual controlado. Este processo estimula a liberação de substâncias endógenas como a β-endorfina, que possui potente efeito analgésico ao se ligar a receptores opioides, e hormônios adrenocorticais, contribuindo para a modulação da dor.
Efeitos Imunomoduladores: Acredita-se que a ventosaterapia exerça uma influência sobre o sistema imune. Uma das teorias é que o procedimento induz uma "inflamação fictícia" localizada, que ativa uma resposta imunológica sistêmica e estimula o sistema complemento. Isso pode levar ao aumento na concentração de compostos como interferon e fator de necrose tumoral (TNF). Considerando que a fibromialgia pode ter componentes autoimunes, essa ativação e modulação do sistema imune pode ser um dos mecanismos que contribuem para os benefícios observados.
Teoria da "Desintoxicação" e Melhora da Microcirculação (Teoria de Taibah): Esta teoria, mais associada à ventosaterapia úmida (Hijama), propõe que a sucção e a extração de uma pequena quantidade de sangue e fluido intersticial removem substâncias patológicas causadoras de doenças (Causative Pathological Substances - CPSs), como mediadores inflamatórios e nociceptivos, acumulados no tecido. O processo também cria um gradiente de pressão que melhora a circulação sanguínea e o fluxo linfático, facilitando a "limpeza" tecidual e a restauração da homeostase.
O Que Dizem as Evidências Científicas?
A avaliação da eficácia da ventosaterapia na fibromialgia apresenta um panorama de resultados promissores, porém com nuances importantes:
Um estudo clínico randomizado de Karacaoglu et al. (2024), que utilizou a ventosaterapia úmida, demonstrou uma redução expressiva nos escores de dor (EVA) e no impacto funcional da doença (FIQ), além de um aumento na qualidade de vida dos pacientes em comparação com o tratamento convencional isolado.
Um estudo anterior de Lauche et al. (2016), utilizando a ventosaterapia seca, obteve resultados mais modestos. Embora superior ao tratamento usual, seus efeitos na redução da dor não foram significativamente diferentes de um tratamento placebo ("sham"), sugerindo que efeitos contextuais podem desempenhar um papel importante nesta modalidade.
Uma revisão sistemática de Salazar-Méndez et al. (2023) encontrou um grande efeito na redução da dor, mas classificou a certeza da evidência como baixa devido à heterogeneidade entre os estudos (diferentes técnicas, tipos de ventosa), o que dificulta a generalização dos resultados.
O estudo de Cao et al. (2020) comparou a ventosaterapia com a acupuntura e não encontrou diferença significativa na eficácia entre as duas terapias para o alívio dos sintomas da FM, posicionando-a como uma alternativa com efeitos comparáveis a outras práticas não farmacológicas.
Implicações Clínicas e Conclusão
A compreensão dos múltiplos mecanismos de ação da ventosaterapia reforça seu potencial como uma terapia complexa e multifacetada, o que é particularmente relevante para uma síndrome multifatorial como a fibromialgia. As evidências clínicas, especialmente para a ventosaterapia úmida, são encorajadoras.Do ponto de vista clínico, a ventosaterapia pode ser considerada uma ferramenta adjuvante valiosa dentro de um plano de tratamento multimodal. A decisão de utilizá-la deve levar em conta a modalidade (úmida vs. seca), as evidências disponíveis, as contraindicações e, fundamentalmente, as preferências e a resposta individual do paciente. A necessidade de mais pesquisas de alta qualidade com protocolos padronizados permanece, a fim de solidificar seu lugar nas diretrizes de tratamento da fibromialgia.
Referências Bibliográficas
CAO, H. et al. Partially randomized patient preference trial: Comparative evaluation of fibromyalgia between acupuncture and cupping therapy (PRPP-FACT). Complementary Therapies in Clinical Practice, v. 41, p. 101255, 2020.
KARACAOGLU, C. et al. Evaluation of the Effectiveness of Wet Cupping Therapy in Fibromyalgia Patients: A Randomized Controlled Trial. Complementary Medicine Research, v. 31, p. 10-19, 2024.
LAUCHE, R. et al. Efficacy of cupping therapy in patients with the fibromyalgia syndrome-a randomised placebo controlled trial. Scientific Reports, v. 6, p. 37316, 2016.
SALAZAR-MÉNDEZ, J. et al. Efficacy of cupping therapy in individuals with fibromyalgia. A systematic review of randomized clinical trials. Journal of Bodywork & Movement Therapies, v. 36, p. 256-262, 2023.



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