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Ventosaterapia no Manejo da Dor Lombar e Cervical Mecânica: Uma Análise Crítica da Literatura Atual

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 30 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A dor lombar e a cervicalgia de origem mecânica representam uma parcela significativa das queixas álgicas nos consultórios e serviços de reabilitação, impactando diretamente a qualidade de vida e a capacidade funcional dos pacientes. Nesse contexto, a busca por abordagens terapêuticas eficazes e seguras é constante. A ventosaterapia, uma prática milenar com raízes na Medicina Tradicional Chinesa, tem ressurgido como uma ferramenta complementar de grande interesse. Este artigo propõe uma análise crítica das evidências científicas recentes sobre a aplicação da ventosaterapia no tratamento dessas condições, com base em revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados.


Mecanismos de Ação Postulados

Embora os mecanismos exatos ainda sejam objeto de estudo, a eficácia da ventosaterapia parece estar associada a uma combinação de efeitos fisiológicos. Acredita-se que a pressão negativa aplicada sobre a pele e os tecidos moles promova:

  • Modulação da Dor: A terapia pode estimular nociceptores e fibras nervosas, ativando o sistema de controle inibitório descendente da dor e alterando a percepção de estímulos dolorosos (Teoria das Comportas da Dor).

  • Aumento da Microcirculação Local: A sucção induz uma vasodilatação localizada, melhorando o fluxo sanguíneo, a oxigenação tecidual e a remoção de metabólitos associados à dor e à inflamação.

  • Liberação Miofascial: A tração vertical exercida pelos copos pode liberar aderências e restaurar o deslizamento entre as camadas da fáscia e do tecido muscular, aliviando a tensão e melhorando a mobilidade, como sugerido por Rodríguez-Hugueta et al. (2020).


Evidências Clínicas na Lombalgia

A literatura recente fornece um suporte considerável para o uso da ventosaterapia na lombalgia, embora com algumas nuances importantes.

  • Eficácia em Curto e Médio Prazo: Uma robusta revisão sistemática com meta-análise de Zhang et al. (2024) demonstrou que a ventosaterapia melhora significativamente a dor, com pico de eficácia entre 2 e 8 semanas de tratamento. De forma similar, Moura et al. (2018) concluíram em sua meta-análise que a terapia é um método promissor, com redução significativa na intensidade da dor crônica nas costas (p=0,001).

  • Superioridade em Relação a Outras Terapias: O estudo de He et al. (2024) revelou que a combinação de ventosaterapia e raspagem foi superior ao tratamento com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) para dor lombar crônica inespecífica, com efeitos mais estáveis e duradouros. Zhang et al. (2024) também apontaram uma superioridade da ventosaterapia em comparação com a farmacoterapia e os cuidados habituais.

  • Variações na Técnica: A análise de Zhang et al. (2024) sugere que a ventosaterapia úmida (wet cupping) pode ser mais eficaz que a seca para a redução da dor, e a aplicação em acupontos específicos demonstrou ser mais efetiva do que a aplicação genérica na região lombar.


Evidências Clínicas na Cervicalgia

Para a dor cervical inespecífica, os estudos também indicam resultados positivos.

Comparabilidade com Outras Técnicas: Um ensaio clínico randomizado conduzido por Patel et al. (2022) mostrou que a ventosaterapia seca teve eficácia e segurança comparáveis à massagem com óleo herbal, com ambas as intervenções promovendo melhora clínica significativa no Neck Disability Index (NDI) e na Escala Visual Analógica (EVA) da dor.

Vantagens da Tecnologia Moderna: O estudo de Rodríguez-Hugueta et al. (2020) utilizou um dispositivo moderno de vácuo miofascial (uma evolução da ventosaterapia tradicional) e observou melhoras estatisticamente significativas na dor (NPRS), incapacidade (NDI), amplitude de movimento (ADM) e nos limiares de dor à pressão (PPT) em comparação com um programa de fisioterapia convencional (TENS, ultrassom e massagem). Notavelmente, os resultados positivos foram mantidos no seguimento de um mês, e os autores destacam a vantagem do dispositivo em permitir um controle digital preciso e reprodutível da pressão, um desafio na prática tradicional.


Desafios e a Necessidade de Padronização

O principal ponto de atenção ressaltado em quase todas as revisões sistemáticas (Moura et al., 2018; Zhang et al., 2024) é a falta de padronização dos protocolos. A heterogeneidade entre os estudos — variando o tipo de ventosa (seca vs. úmida), o tempo de aplicação, o nível de pressão e os locais de tratamento — dificulta a replicação e a formulação de diretrizes clínicas definitivas. Essa variabilidade é um fator que contribui para a incerteza sobre os efeitos em longo prazo, que, segundo Zhang et al. (2024), não se sustentam de forma consistente após 1 a 6 meses.


Conclusão para a Prática Clínica

A ventosaterapia se apresenta como uma ferramenta terapêutica adjuvante valiosa e eficaz para o manejo em curto e médio prazo da lombalgia e cervicalgia de origem mecânica. As evidências atuais indicam que ela pode ser superior a algumas abordagens convencionais, como o uso de AINEs, e comparável a outras, como a massagem.Para o profissional, é fundamental uma abordagem crítica, considerando que a eficácia pode depender da técnica empregada (úmida vs. seca), da precisão na aplicação (acupontos vs. área geral) e do tipo de dor. A incorporação de tecnologias que permitem a padronização da pressão, como os dispositivos de vácuo miofascial, pode representar o futuro da técnica, garantindo maior reprodutibilidade e segurança.Conclui-se que a ventosaterapia, quando bem indicada e integrada a um plano de tratamento multimodal, é uma opção terapêutica promissora, sendo crucial que futuras pesquisas se concentrem na padronização de protocolos para validar seus efeitos em longo prazo.


Referências Bibliográficas

  1. HE, J. et al. Short-term effects of cupping and scraping therapy for chronic nonspecific low-back pain: A prospective, multicenter randomized trial. Journal of Integrative Medicine, v. 22, n. 1, p. 39-45, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.joim.2024.01.004.

  2. MOURA, C. C. et al. Cupping therapy and chronic back pain: systematic review and meta-analysis. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 26, e3094, 2018. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.2888.3094.

  3. PATEL, M. I. et al. The efficacy of prolonged gentle massage with herbal oil versus dry cupping in nonspecific neck pain - a randomized controlled clinical trial. European Journal of Integrative Medicine, v. 55, 102156, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.eujim.2022.102156.

  4. RODRÍGUEZ-HUGUETA, M. et al. Vacuum myofascial therapy device for non-specific neck pain. A single blind randomized clinical trial. Complementary Therapies in Medicine, v. 52, 102449, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ctim.2020.102449.

  5. ZHANG, Z. et al. The effectiveness of cupping therapy on low back pain: A systematic review and meta-analysis of randomized control trials. Complementary Therapies in Medicine, v. 80, 103013, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ctim.2024.103013.

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