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Ventosaterapia na Prática Clínica Moderna: Evidências e Aplicações para Profissionais de Saúde

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 30 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura
Profissional de saúde aplicando ventosas de acrílico nas costas de um paciente para tratamento de dor lombar, demonstrando a técnica de ventosaterapia

A ventosaterapia, uma prática com raízes em diversas culturas antigas, tem ressurgido no cenário da saúde ocidental, não mais como uma terapia alternativa isolada, mas como um recurso complementar e integrativo. Para o profissional de saúde cético e criterioso, a questão fundamental não é a sua antiguidade, mas sua plausibilidade biológica e eficácia clínica. Felizmente, a ciência moderna começa a decodificar os mecanismos de ação que validam o seu uso, posicionando-a como uma ferramenta valiosa no arsenal terapêutico, especialmente no manejo da dor musculoesquelética.


Desvendando os Mecanismos de Ação: O que Diz a Ciência?

A aplicação de pressão negativa na pele desencadeia uma cascata de respostas fisiológicas que vão muito além do efeito mecânico superficial. Estudos, como a revisão publicada por Al-Bedah et al. (2019), elucidam múltiplos mecanismos:

  • Modulação da Dor (Teoria da Dor): A estimulação cutânea intensa ativa fibras nervosas de grande diâmetro (Aβ), que, de acordo com a Teoria das Comportas, podem inibir a transmissão de sinais de dor conduzidos por fibras mais finas (Aδ e C) no corno dorsal da medula espinhal.

  • Aumento da Perfusão Sanguínea Local: A sucção causa vasodilatação e um aumento significativo no fluxo sanguíneo local. Isso melhora a oxigenação tecidual e, crucialmente, facilita a remoção de metabólitos algogênicos acumulados, como bradicinina e prostaglandinas.

  • Resposta Imunológica e Anti-inflamatória: A ruptura de capilares (causando a equimose característica) é interpretada pelo corpo como um microtrauma, ativando uma resposta imunológica local. Isso envolve a liberação de citocinas anti-inflamatórias e fatores de crescimento que podem ajudar a resolver processos inflamatórios crônicos.

  • Liberação Miofascial e Tecidual: A pressão negativa eleva a pele, a fáscia e as camadas musculares subjacentes, promovendo a liberação de aderências, aumentando a flexibilidade tecidual e restaurando a biomecânica local.


Evidências Clínicas em Dores Musculoesqueléticas

A eficácia da ventosaterapia tem sido investigada em diversas condições, com as dores crônicas na coluna (cervical e lombar) sendo as mais estudadas.Uma meta-análise publicada por Jia et al. (2025) avaliou os efeitos da ventosaterapia na dor musculoesquelética crônica. Os resultados agregados demonstraram que a ventosaterapia, especialmente quando comparada a nenhum tratamento ou a tratamentos de rotina, levou a uma redução estatisticamente significativa na intensidade da dor, avaliada por escalas visuais analógicas (EVA), e a uma melhora na funcionalidade e qualidade de vida dos pacientes.Outra revisão sistemática com meta-análise, focada especificamente em dor lombar crônica, corroborou esses achados, indicando que a ventosaterapia pode ser um adjuvante eficaz, proporcionando alívio da dor a curto e médio prazo.


Uma Perspectiva Crítica e Integrativa

Apesar das evidências promissoras, é imperativo que o profissional de saúde adote uma visão crítica. Muitos estudos apresentam heterogeneidade metodológica, e o debate sobre o efeito placebo permanece relevante. Contudo, a força da ventosaterapia na prática clínica moderna não reside em ser uma panaceia, mas sim em sua capacidade de se integrar a um plano de tratamento multimodal. Sob a perspectiva da Fisiatria e da Medicina do Esporte, ela serve como uma excelente ferramenta para:

  • Preparar o tecido para intervenções cinesioterapêuticas.

  • Acelerar a recuperação pós-exercício (DOMS).

  • Modular a dor para permitir que o paciente participe mais ativamente da reabilitação.


Em suma, a ventosaterapia, quando fundamentada em uma avaliação clínica precisa e executada por um profissional habilitado que compreende seus mecanismos fisiológicos e contraindicações, transcende suas origens tradicionais para se tornar uma intervenção baseada em evidências, segura e eficaz no manejo da dor e disfunções musculoesqueléticas.


Referências Bibliográficas

  1. JIA, Yuanyuan et al. Effects of cupping therapy on chronic musculoskeletal pain and collateral problems: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open, v. 15, n. 5, e087340, maio 2025.AL-BEDAH, Abdullah MN et al. The medical perspective of cupping therapy: Effects and mechanisms of action. Journal of Traditional and Complementary Medicine, v. 9, n. 2, p. 90-97, abr. 2019.

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