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Ventosaterapia e Medicina Tradicional Chinesa: Desvendando os Mecanismos Energéticos

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 30 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura
Aplicação de ventosaterapia com ventosas de vidro nas costas de um paciente, ilustrando a técnica segundo os princípios da Medicina Tradicional Chinesa para mover Qi e Xue.

Enquanto a ciência ocidental contemporânea investiga a ventosaterapia através de marcadores bioquímicos e respostas neurofisiológicas, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) oferece um paradigma funcional e energético, refinado ao longo de milênios de prática clínica. Compreender esta perspectiva não é apenas um exercício histórico; é uma forma de acessar uma rica camada de diagnóstico e raciocínio clínico que explica por que a técnica funciona em cenários tão diversos.

Na MTC, a saúde é sinônimo de fluxo harmonioso e livre de Qi (a energia vital que anima todas as funções do corpo) e Xue (sangue, entendido como um veículo denso do Qi). Ambos circulam através de uma rede de canais chamados meridianos, que conectam a superfície do corpo aos órgãos internos. A dor e a doença, em sua maioria, são vistas como manifestações de um bloqueio nesse fluxo, uma condição conhecida como estagnação.

Nesse contexto, os mecanismos de ação da ventosaterapia (báguàn, 拔罐) são elegantemente diretos:


1. Mover a Estagnação de Qi e Xue: A Raiz do Alívio da Dor

Este é o princípio mais fundamental. Dores que são fixas, agudas, latejantes ou que pioram com a pressão são classicamente diagnosticadas como estagnação de Qi e Xue. A sucção da ventosa cria um vácuo que puxa o fluxo bloqueado das camadas musculares profundas para a superfície. Ao "desobstruir o tráfego" nos meridianos, a técnica permite que o Qi e o Xue voltem a fluir livremente, nutrindo os tecidos e, consequentemente, aliviando a dor de forma imediata e, muitas vezes, duradoura.


2. Expelir Fatores Patogênicos Externos

A MTC postula que o corpo pode ser invadido por fatores ambientais, principalmente Vento, Frio e Umidade. Esses "invasores" podem se alojar nos músculos e articulações, obstruindo o fluxo de Qi e causando dor, rigidez e edema.

  • Frio: Causa contração e dor aguda, como em torcicolos ou lombalgias que surgem após um golpe de ar.

  • Umidade: Gera dor com sensação de peso e inchaço, que piora em climas úmidos.

A ventosaterapia é considerada uma das ferramentas mais eficazes para "puxar" e "expelir" esses fatores patogênicos da camada superficial do corpo (a pele e os músculos, chamados de camada Wei Qi), resolvendo a causa da disfunção.


3. A Marca como um Mapa Diagnóstico

Para a MTC, a equimose resultante não é um mero efeito colateral, mas uma valiosa ferramenta de diagnóstico visual. A cor e a aparência da marca (sha) revelam a natureza do desequilíbrio subjacente:

  • Roxo-escuro ou Preto: Indica estagnação de sangue severa e crônica.

  • Vermelho-vivo: Sugere a presença de "Calor" patogênico (um padrão que pode se correlacionar com inflamação aguda).

  • Pálida ou esbranquiçada: Pode indicar uma condição de "Frio" ou uma "Deficiência" de Qi e Xue.

  • Presença de gotículas de água na parede do copo: Aponta para uma retenção significativa de "Umidade" nos tecidos.


Observar a evolução da cor das marcas ao longo das sessões permite ao terapeuta avaliar a eficácia do tratamento e a melhora da circulação local.


Em resumo, a perspectiva da MTC oferece um sistema completo que explica não apenas o efeito terapêutico da ventosaterapia, mas também a utiliza como ferramenta de diagnóstico. Embora a linguagem seja diferente – falando de Qi, Xue e meridianos em vez de neurônios e citocinas –, os objetivos clínicos são notavelmente paralelos: restaurar a circulação, modular a inflamação e, acima de tudo, aliviar a dor.


Referências Bibliográficas

  1. MACIOCIA, Giovanni. Os Fundamentos da Medicina Chinesa: Um Texto Abrangente para Acupunturistas e Fitoterapeutas. 3. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2017.

  2. CHIRALI, Ilkay Z. Traditional Chinese Medicine Cupping Therapy. 3. ed. London: Singing Dragon, 2014.

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