Ventosaterapia com Sangria (Wet Cupping): Um Procedimento Médico Invasivo
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Após discutirmos as técnicas não invasivas de ventosaterapia (fixa e deslizante), é imperativo abordar a modalidade mais complexa e controversa: a Ventosaterapia com Sangria (wet cupping ou hijama). Este método é um procedimento invasivo que envolve a escarificação (pequenas incisões superficiais) da pele, seguida pela aplicação de sucção para extrair uma pequena quantidade de sangue.
Dada a sua natureza, este procedimento sai do campo das terapias complementares de aplicação geral e entra no território dos atos de profissionais de saúde, devidamente habilitados, exigindo um nível de conhecimento, assepsia e responsabilidade muito superior.
Nota Importante: Regulamentação, Riscos e Prática Exclusivamente de Profissionais de Saúde Devidamente Habilitados
Antes de prosseguir, é fundamental esclarecer:
Regulamentação no Brasil: No Brasil, A realização da ventosaterapia com sangria (ou Hijama) é uma técnica invasiva no Brasil e, como tal, exige que o procedimento seja executado por profissionais de saúde devidamente habilitados e capacitados. A capacidade de realizar a ventosaterapia com sangria depende do escopo de prática definido por cada conselho profissional, que geralmente a inclui como parte das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS).
Indicações Restritas e Evidências Limitadas: As evidências científicas de alta qualidade que suportam a eficácia da ventosaterapia com sangria para muitas das condições para as quais é popularmente promovida ainda são limitadas. A decisão de utilizá-la deve ser baseada em uma avaliação criteriosa do médico, ponderando os potenciais benefícios contra os riscos significativos.
Necessidade de Profissional Habilitado: Devido ao risco real de infecções locais e sistêmicas, transmissão de doenças (como hepatite B, C e HIV), e de formação de cicatrizes, além da necessidade potencial do manejo adequado das possíveis complicações, este procedimento deve ser realizado exclusivamente por profissionais de saúde devidamente habilitados e capacitados em ambiente clínico adequado, com total aderência às normas de biossegurança e esterilização de materiais.
Indicações e Mecanismos de Ação Propostos
A teoria por trás da ventosaterapia com sangria sugere que a remoção de uma pequena quantidade de sangue estagnado, fluido intersticial e mediadores inflamatórios do tecido local pode promover um efeito terapêutico.As indicações são restritas e devem ser avaliadas caso a caso por um médico. Algumas áreas onde a técnica é investigada incluem:
Certas condições de dor crônica que não respondem a tratamentos convencionais.
Algumas condições inflamatórias e metabólicas, onde se postula que a remoção de toxinas e mediadores pró-inflamatórios poderia ser benéfica.
Neuralgia pós-herpética (investigacional).
Modo de Uso: O Procedimento
Este é um procedimento clínico que segue etapas rigorosas de assepsia.
Assepsia e Primeira Sucção: A área é rigorosamente limpa com antisséptico (ex: clorexidina). Um copo é aplicado com sucção por cerca de 3 a 5 minutos para causar hiperemia e analgesia local.
Escarificação Superficial: O copo é removido e, com uma lâmina de bisturi estéril ou uma lanceta descartável, o profisisonal de saúde devidamente habilitado e capacitado realiza múltiplas incisões muito pequenas e superficiais na pele. A profundidade é mínima, apenas para perfurar a derme papilar.
Segunda Sucção (Sangria): O copo é reaplicado sobre a área escarificada. A pressão negativa extrai uma pequena quantidade de sangue escuro e fluido intersticial, que se acumula dentro do copo. Este passo dura de 5 a 10 minutos.
Finalização e Curativo: O copo é removido, o sangue é descartado em lixo biológico apropriado e a área é novamente limpa com antisséptico. Um curativo estéril com pomada antibiótica é aplicado e deve ser mantido por 24-48 horas.
Contraindicações Absolutas
Pacientes com anemia, distúrbios de coagulação (hemofilia) ou em uso de anticoagulantes/antiagregantes plaquetários.
Gestantes, crianças e idosos muito frágeis.
Pacientes com diabetes mellitus descompensado (risco de cicatrização e infecção).
Indivíduos com histórico de formação de queloides ou cicatrizes hipertróficas.
Sobre áreas com infecção de pele, dermatites, varizes ou feridas.
Pacientes com doenças crônicas graves (insuficiência cardíaca, renal ou hepática).
Precauções
Consentimento Informado: O paciente deve ser plenamente informado sobre os riscos, benefícios, cuidados pós-procedimento e assinar um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Avaliação Médica Completa: Incluindo histórico de saúde, exames de sangue (hemograma, coagulograma) se necessário.
Ambiente e Material: O procedimento deve ocorrer em sala clinicamente limpa, e TODO o material que entra em contato com a pele e o sangue (copos, lâminas, luvas) deve ser estéril e descartável.
Possíveis Efeitos Adversos Graves
Infecção: O risco mais significativo. Pode ser uma infecção de pele localizada (celulite) ou, em casos raros, sistêmica (sepse).
Cicatrizes Permanentes: Incluindo cicatrizes hipertróficas e queloides.
Transmissão de Doenças Sanguíneas: Um risco real se o material não for descartável e estéril.
Reação Vasovagal (Desmaio): Devido à dor ou à visão do sangue.
Anemia: Se o procedimento for realizado de forma excessiva ou em múltiplos locais.
Hiperpigmentação ou Hipopigmentação residual na área tratada.
Manejo dos Efeitos Adversos
Sinais de Infecção (dor crescente, calor, vermelhidão, pus, febre): O paciente deve ser orientado a procurar o médico imediatamente. O tratamento requer o uso de antibióticos sistêmicos.
Cicatrizes Anormais: O tratamento é complexo e pode envolver o uso de placas de silicone, corticoides intralesionais ou outros procedimentos dermatológicos.
Sangramento Pós-procedimento: Compressão local. Se persistir, uma avaliação médica é necessária.
Conclusão
A ventosaterapia com sangria é um procedimento invasivo com riscos inerentes e, portanto, é um ato médico. Sua indicação é restrita e deve ser feita após uma criteriosa avaliação que coloque a segurança do paciente em primeiro lugar. A população deve ser alertada contra a realização deste procedimento por profissionais não habilitados, em ambientes que não seguem as normas de biossegurança.
Referências Bibliográficas
AL-BEDAH, Abdullah et al. The medical perspective of cupping therapy: Effects and mechanisms of action. Journal of Traditional and Complementary Medicine, v. 9, n. 2, p. 90-97, 2019. (Este artigo discute os diferentes tipos, incluindo a modalidade com sangria).
CAO, H. et al. An updated review of the efficacy of cupping therapy. PLoS One, v. 7, n. 2, e31793, 2012.
QURESHI, N. A. et al. History of cupping (Hijama): a narrative review of literature. Journal of Integrative Medicine, v. 15, n. 3, p. 172-181, 2017.



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