O Racional da MTC no Manejo da Náusea e Vômito Pós-Operatório
- Dr. Sergio Akira Horita

- 11 de nov.
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Enquanto a ciência biomédica atribui a Náusea e Vômito no Pós-Operatório (NVPO) à estimulação da zona de gatilho quimiorreceptora e do centro do vômito por anestésicos e outros fatores, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) oferece uma perspectiva diagnóstica complementar, focada na dinâmica do Qi (Energia Vital) no sistema digestivo. Compreender este racional permite ao profissional aplicar a acupuntura com intenção e precisão, otimizando os resultados clínicos.
O diagnóstico central da MTC para náusea e vômito é a Rebelião do Qi do Estômago (胃气上逆, Wèi Qì Shàng Nì).
Fisiologia Energética e a Rebelião do Qi do Estômago
Na MTC, cada órgão (Zang Fu) tem uma direção fisiológica para o fluxo de seu Qi. O Estômago (Wei) é o órgão responsável por receber e decompor os alimentos, e sua função energética primordial é fazer o Qi descender. Ele envia a parte "impura" dos alimentos para baixo, para os Intestinos, para posterior processamento e excreção.
Quando essa função é perturbada, o Qi do Estômago, em vez de descer, ascende de forma patológica. Essa "rebelião" contra o fluxo normal é o que se manifesta como náusea, eructação, soluço e, em casos mais intensos, vômito.
O ato cirúrgico e o período perioperatório criam um cenário perfeito para desencadear essa rebelião por múltiplas vias:
Estagnação de Qi do Fígado (肝气郁结, Gān Qì Yù Jié): A ansiedade, o medo e o estresse emocional pré-operatório levam à estagnação do Qi do Fígado. O Fígado, na teoria dos Cinco Elementos, tende a "atacar" ou "supercontrolar" o sistema Baço/Estômago (Madeira invade a Terra). Essa invasão energética perturba a função do Estômago, impedindo a descida de seu Qi.
Deficiência de Qi do Baço e Estômago (脾胃气虚, Pí Wèi Qì Xū): O jejum pré-operatório e a própria agressão cirúrgica (que consome Qi e Sangue - Xue) enfraquecem o sistema digestivo. Um Estômago com Qi deficiente não tem força para manter seu movimento descendente fisiológico, tornando-se suscetível à rebelião.
Invasão de Fatores Patogênicos: Anestésicos e o ambiente frio do centro cirúrgico podem ser vistos como uma invasão de Frio e Umidade, que são patógenos de natureza "pesada" e obstrutiva. Eles se alojam no Aquecedor Médio (a região do Estômago e do Baço), bloqueando o fluxo de Qi e forçando sua ascensão.
O Princípio Terapêutico e a Lógica dos Pontos
O tratamento com acupuntura visa, portanto, reestabelecer a ordem fisiológica. O princípio terapêutico é claro: Harmonizar o Estômago, subjugar a rebelião do Qi e direcionar seu fluxo para baixo.
A seleção de pontos é uma aplicação direta deste princípio:
Ponto-Mestre: CS6 (Neiguan - Portão Interno) O ponto CS6 (Neiguan) é a escolha primária e mais eficaz. Sua potência vem de múltiplas funções:
Abre o Peito e Regula o Qi: Localizado no meridiano do Pericárdio (Xin Bao), ele tem uma ação poderosa sobre todo o tórax e o abdome superior (Aquecedor Médio). Ele acalma a mente (Shen), que é agitada pela cirurgia e anestesia, e, crucialmente, submete o Qi rebelde do Estômago, aliviando a náusea. Seu nome, "Portão Interno", reflete sua capacidade de regular profundamente os órgãos internos.
Ponto de Suporte: E36 (Zusanli - Três Milhas do Pé) O ponto E36 (Zusanli) é um dos pontos mais importantes da acupuntura. Para a NVPO, ele atua de duas formas principais:
Fortalece o Centro: É o principal ponto para tonificar o Qi e o Sangue do corpo e fortalecer o sistema Baço/Estômago. Isso trata a deficiência de base causada pelo estresse cirúrgico e pelo jejum.
Promove a Descida: Como um ponto do próprio canal do Estômago, tem uma forte ação em direcionar o Qi do canal para baixo, auxiliando diretamente na supressão da rebelião.
A combinação CS6 + E36 cria uma sinergia poderosa: CS6 trata a manifestação (a rebelião do Qi) e acalma a mente, enquanto E36 trata a raiz (a deficiência do Estômago) e fortalece a constituição do paciente para uma recuperação mais suave.
Conclusão
Do ponto de vista da MTC, a NVPO não é apenas um efeito colateral de fármacos, mas um distúrbio agudo na dinâmica energética do corpo, provocado por um conjunto de fatores físicos e emocionais. A acupuntura, ao utilizar pontos como o CS6 e o E36, não age como um "antagonista de receptor" no sentido farmacológico, mas como um regulador fisiológico, que restabelece o fluxo de Qi correto, harmoniza os órgãos internos e acalma a mente. É uma intervenção elegante que trata tanto a manifestação sintomática quanto a desarmonia subjacente.
Referências bibliográficas:
FOCKS, C.; MÄRKL, U. Atlas de Acupuntura: com pontos de gatilho, pontos de acupressura e anatomia. 2. ed. Barueri: Manole, 2010.
MACIOCIA, G. Os Fundamentos da Medicina Chinesa: Um texto abrangente para acupunturistas e fitoterapeutas. 2. ed. São Paulo: Roca, 2007.
MACIOCIA, G. A Prática da Medicina Chinesa: Tratamento de doenças com acupuntura e ervas chinesas. 1. ed. São Paulo: Roca, 2009.



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