O Mapa de Nogier e a Escola Francesa: Uma Visão Neuro-Embriológica da Orelha
- Dr. Sergio Akira Horita

- há 3 dias
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No nosso último guia, navegamos pelo mapa auricular da Escola Chinesa, fundamentado na somatotopia do feto invertido. Agora, mergulhamos no sistema que revolucionou a auriculoterapia no Ocidente: o Mapa de Nogier, a base da Escola Francesa.Desenvolvido pelo médico Dr. Paul Nogier, este sistema não apenas mapeia o corpo, mas o organiza segundo uma lógica que nos é muito familiar: a embriologia e a neurofisiologia. É uma abordagem que transforma a orelha em um terminal do sistema nervoso central, onde o desenvolvimento do corpo humano, desde seus estágios mais iniciais, está registrado.
1. A Organização por Folhetos Embrionários: Um Mapa do Desenvolvimento
A genialidade de Nogier foi perceber que a distribuição dos pontos na orelha segue a origem embriológica dos tecidos. A orelha é dividida em três grandes áreas, cada uma correspondendo a um dos folhetos germinativos primários:
Endoderma (Órgãos Internos): A concha (especialmente a Concha Cava, inferior) representa os tecidos derivados do endoderma. É aqui que encontramos os pontos correspondentes aos órgãos do sistema digestivo (fígado, estômago, pâncreas) e respiratório (pulmões, brônquios). O tratamento nesta área visa à regulação metabólica e visceral.
Mesoderma (Estruturas de Suporte): A anti-hélice e a fossa escafoide correspondem aos tecidos mesodérmicos. Esta área mapeia todo o sistema musculoesquelético (ossos, músculos, coluna vertebral) e órgãos como o coração e os rins. É a principal zona para o tratamento de dores, inflamações e disfunções motoras.
Ectoderma (Sistema Nervoso e Pele): O lóbulo, a hélice e a fossa triangular correspondem aos tecidos de origem ectodérmica. Aqui se localizam os pontos que têm ação direta sobre o sistema nervoso central (tronco cerebral, córtex), a pele e os órgãos dos sentidos. Esta área é crucial para o tratamento de condições neurológicas, dor neuropática, ansiedade e problemas de pele.
2. As Três Fases de Nogier: Adaptando o Tratamento à Cronicidade
Outra contribuição revolucionária de Nogier foi a descoberta de que a localização dos pontos não é estática. Ela pode mudar de acordo com a natureza e a cronicidade da doença. Ele descreveu três "fases":
Fase 1 (Padrão): É o mapa mais conhecido, correspondente ao feto invertido e usado para tratar patologias agudas. Os pontos estão em sua localização "padrão".
Fase 2 (Crônica): Em doenças crônicas, os pontos podem "girar" para uma posição mais medial (para dentro da orelha).
Fase 3 (Degenerativa): Em condições degenerativas ou de longa data, os pontos podem se deslocar para uma posição mais lateral (para fora da orelha).


Esta compreensão permite ao terapeuta adaptar o tratamento, procurando o ponto reativo não apenas na sua localização padrão, mas também em suas possíveis variações, aumentando drasticamente a eficácia terapêutica em casos complexos. A detecção desses pontos é frequentemente realizada com detectores elétricos ou através do VAS (Sinal Vascular Autônomo), outra das grandes contribuições de Nogier.
Dominar o sistema francês é falar a língua da neurofisiologia. É entender que cada ponto estimulado é um comando enviado diretamente ao sistema nervoso central, utilizando uma interface que foi moldada junto com o nosso próprio corpo.
Referências Bibliográficas
NOGIER, Paul. Treatise of Auriculotherapy. Moulins-lès-Metz: Maisonneuve, 1972.
OLESON, Terry. Auriculotherapy Manual: Chinese and Western Systems of Ear Acupuncture. 4. ed. San Diego: Elsevier, 2014.
ROMOLI, Marco. Auriculoterapia e Auriculomedicina: bases neurofisiológicas e aplicações clínicas. São Paulo: Roca, 2010. WANG, Lei et al. The similarities between the World Federation of Acupuncture-Moxibustion Societies’ standards for auricular acupuncture points and the European System of Auriculotherapy Points according to Nogier and Bahr. European Journal of Integrative Medicine, [S.l.], v. 8, p. 817-834, 2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1016/j.eujim.2016.06.011.



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