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O Controle Descendente da Dor: O Papel da Substância Cinzenta Periaquedutal e do Núcleo Magno da Rafe

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 6 de nov.
  • 3 min de leitura
Ilustração esquemática do cérebro e da medula espinhal mostrando as vias descendentes de controle da dor, com destaque para a Substância Cinzenta Periaquedutal (PAG) e o Núcleo Magno da Rafe (NRM) inibindo o sinal de dor

Enquanto a Teoria das Comportas descreve a modulação da dor em nível segmentar e espinhal, os mecanismos mais poderosos de analgesia endógena envolvem um sofisticado sistema de controle descendente. Trata-se de uma via "de cima para baixo" (top-down), onde o cérebro ativamente suprime os sinais de dor que ascendem da periferia. No coração deste sistema estão duas estruturas críticas: a Substância Cinzenta Periaquedutal (PAG) e o Núcleo Magno da Rafe (NRM).


Substância Cinzenta Periaquedutal (PAG): O Centro de Comando Analgésico

Localizada no mesencéfalo, circundando o aqueduto cerebral, a PAG funciona como um centro integrador e de comando para a analgesia. Ela recebe aferências de múltiplas áreas cerebrais, incluindo:

  • Córtex pré-frontal e Córtex cingulado anterior: Áreas relacionadas à atenção, cognição e ao componente afetivo-emocional da dor.

  • Hipotálamo e Amígdala: Estruturas do sistema límbico que processam o estresse, o medo e as respostas autonômicas à dor.

  • Vias Ascendentes da Dor (Trato Espinotalâmico): A própria PAG recebe informações sobre a presença de um estímulo nociceptivo.

Essa convergência de informações permite que o cérebro tome uma decisão executiva: "em face deste estímulo doloroso e do meu estado atual (atenção, estresse, expectativa), devo suprimir este sinal?". Quando a decisão é pela analgesia, a PAG é ativada.


A Cascata de Ativação: Da PAG ao NRM

A PAG não age diretamente na medula. Sua principal via de ação é através de projeções excitatórias (principalmente glutamatérgicas) para núcleos no bulbo rostral ventromedial (RVM), sendo o mais importante o Núcleo Magno da Rafe (NRM) e estruturas adjacentes como o núcleo gigantocelular.

O NRM, rico em neurônios serotoninérgicos, funciona como a principal estação retransmissora do sistema descendente. Uma vez ativado pela PAG, ele inicia o envio de sinais inibitórios para a medula espinhal.


A Inibição na Medula Espinhal: O Mecanismo Final

Neurônios do NRM projetam-se caudalmente, através do funículo dorsolateral da medula espinhal, até o corno dorsal, o mesmo local onde ocorre o "portão da dor". Lá, eles exercem sua ação inibitória de duas maneiras principais:

  • Liberação de Serotonina (5-HT) e Norepinefrina (NE): Os terminais dos neurônios descendentes liberam serotonina (do NRM) e norepinefrina (do locus coeruleus, outra estrutura ativada pela PAG). Esses neurotransmissores agem nos terminais pré-sinápticos das fibras nociceptivas (A-delta e C), inibindo a liberação de seus próprios neurotransmissores excitatórios (Substância P e glutamato).

  • Ativação de Interneurônios Inibitórios: A serotonina e a norepinefrina também ativam interneurônios locais no corno dorsal, conhecidos como interneurônios de encefalina. Estes, por sua vez, liberam opioides endógenos (encefalinas) que se ligam a receptores opioides (mu e delta) tanto nos terminais pré-sinápticos das fibras de dor quanto no corpo do neurônio de segunda ordem, causando hiperpolarização e impedindo a propagação do sinal de dor.

O resultado é um potente bloqueio da transmissão do sinal nociceptivo na primeira sinapse da via da dor.


Relevância Clínica

Este sistema é a base neurofisiológica para a analgesia induzida por opioides exógenos (como a morfina, que age diretamente na PAG e na medula) e pelo efeito placebo. Terapias como a acupuntura, especialmente em baixa frequência, são potentes ativadoras desta via descendente, explicando seus efeitos analgésicos mais globais e duradouros, que superam a modulação puramente segmentar.


Compreender a via PAG-NRM-Corno Dorsal é, portanto, essencial para qualquer profissional que busque modular a dor de forma central, utilizando tanto abordagens farmacológicas quanto terapêuticas como a acupuntura.


Referências bibliográficas:

  1. BASBAUM, A. I.; FIELDS, H. L. Endogenous pain control systems: brainstem spinal pathways and endorphin circuitry. Annual Review of Neuroscience, v. 7, p. 309-338, 1984.

  2. FIELDS, H. State-dependent opioid control of pain. Nature Reviews Neuroscience, v. 5, n. 7, p. 565-575, 2004.

  3. MILLAN, M. J. Descending control of pain. Progress in Neurobiology, v. 66, n. 6, p. 355-474, 2002.

  4. ZHAO, Z. Q. Neural mechanism underlying acupuncture analgesia. Progress in Neurobiology, v. 85, n. 4, p. 355-375, 2008.

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