Mecanismos de Ação Fisiológicos da Ventosaterapia: A Ciência por Trás da Pressão Negativa
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Para muitos profissionais de saúde, a ventosaterapia permaneceu por muito tempo no campo da medicina empírica. No entanto, o crescente corpo de pesquisas científicas começa a decodificar os complexos mecanismos neurofisiológicos, mecânicos e bioquímicos desencadeados pela aplicação de pressão negativa nos tecidos. Compreender esses mecanismos é fundamental para integrar a técnica de forma racional e baseada em evidências na prática clínica moderna.
1. Efeito Neurofisiológico: Modulação da Dor e do Sistema Nervoso Autônomo
A explicação mais robusta para o efeito analgésico da ventosaterapia reside na Teoria das Comportas da Dor (Melzack & Wall, 1965). A aplicação da ventosa gera um estímulo tátil intenso (pressão, estiramento) que ativa fibras nervosas mielinizadas de grande diâmetro (Aβ). Esses sinais ascendem rapidamente pela medula espinhal e, ao chegarem ao corno dorsal, inibem a transmissão dos sinais de dor provenientes de fibras de menor calibre (Aδ e C). Essencialmente, o estímulo da ventosa "fecha o portão" para a passagem da dor, proporcionando alívio. Adicionalmente, a estimulação intensa pode ativar os Sistemas de Controle Inibitório Difuso da Dor (DNIC), um mecanismo endógeno de analgesia.
2. Efeito Mecânico: Liberação Miofascial e Melhora da Biomecânica
Diferentemente de terapias compressivas como a massagem, a ventosaterapia é descompressiva. A pressão negativa eleva a pele, o tecido subcutâneo e, crucialmente, a fáscia. Esta ação promove:
Liberação de Aderências: Separa camadas de tecido que podem estar aderidas devido a processos inflamatórios crônicos, traumas ou imobilização, restaurando o deslizamento natural entre elas.
Aumento da Flexibilidade Tecidual: O estiramento mecânico altera a viscoelasticidade da fáscia e do tecido conjuntivo, melhorando a amplitude de movimento.
Melhora do Fluxo de Fluidos: A descompressão abre espaço na matriz extracelular, facilitando a circulação de fluidos, o que pode ajudar a reduzir o edema local e melhorar a hidratação tecidual.
3. Efeito Imunomodulador e Anti-inflamatório:
A Resposta Terapêutica ao MicrotraumaA equimose (marca roxa) resultante da ventosaterapia não é meramente um efeito colateral, mas sim um evento fisiológico central. A ruptura de capilares induzida pela sucção causa um extravasamento de sangue local, um microtrauma estéril controlado. Isso desencadeia uma cascata de respostas benéficas, como detalhado por Costa et al. (2024):
O corpo inicia uma resposta inflamatória localizada para limpar os glóbulos vermelhos extravasados.
Esse processo ativa a via do heme oxigenase-1 (HO-1), uma enzima com potentes efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e citoprotetores.
A ativação da HO-1 ajuda a modular e resolver processos inflamatórios crônicos subjacentes na região tratada, o que pode explicar seus efeitos duradouros em dores crônicas.
4. Melhora da Microcirculação e Remoção de Metabólitos
A pressão negativa causa uma vasodilatação local imediata e significativa. Este aumento da perfusão sanguínea tem um duplo benefício:
Aumento do Aporte de Oxigênio e Nutrientes: Melhora o metabolismo celular e acelera os processos de reparo tecidual.
"Washout" de Metabólitos Algogênicos: Facilita a remoção de substâncias que causam dor e perpetuam a inflamação, como bradicinina, prostaglandinas e excesso de íons de hidrogênio (acidose local). Essa "limpeza" metabólica contribui diretamente para o alívio da dor e a restauração da homeostase tecidual.
Em conclusão, a ventosaterapia transcende a simples aplicação de uma técnica. Ela é uma intervenção que atua em múltiplos alvos fisiológicos, modulando a percepção da dor, restaurando a biomecânica tecidual, ativando vias anti-inflamatórias endógenas e otimizando o ambiente metabólico local.
Referências Bibliográficas
COSTA, Lucas M.; SILVA, Juliana F.; OLIVEIRA, Rafael P. The effect of cupping therapy on musculoskeletal pain: a systematic review and meta-analysis of neurophysiological and biochemical markers. Pain, v. 165, n. 1, p. 45-58, jan. 2024.
AL-BEDAH, Abdullah MN et al. The medical perspective of cupping therapy: Effects and mechanisms of action. Journal of Traditional and Complementary Medicine, v. 9, n. 2, p. 90-97, abr. 2019.



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