Avaliação Clínica Pré-Ventosaterapia: O Que o Médico Deve Investigar?
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

A ventosaterapia, embora frequentemente percebida como uma técnica simples, é um procedimento terapêutico que exige uma avaliação clínica criteriosa para garantir sua segurança e eficácia. A decisão de aplicar os copos, escolher a modalidade (fixa, deslizante ou com sangria) e definir os parâmetros de tratamento não deve ser arbitrária. Ela deve ser o resultado de um raciocínio clínico baseado em uma avaliação médica completa.
Este artigo detalha os componentes essenciais da investigação clínica que deve preceder qualquer sessão de ventosaterapia, um passo indispensável para uma prática segura e responsável.
1. Anamnese Dirigida: A Base da Investigação
A conversa com o paciente é o ponto de partida. Uma anamnese bem conduzida já é capaz de identificar a maioria das contraindicações e direcionar o tratamento. O médico deve investigar ativamente:
História da Queixa Principal
Localização, Irradiação e Qualidade da Dor: Onde exatamente é o sintoma? É uma dor em queimação, pontada, peso? Irradia para outras áreas?
Fatores de Melhora e Piora: O que alivia a dor (repouso, movimento, calor)? O que a agrava?
Intensidade e Cronologia: Em uma escala de 0 a 10, qual a intensidade da dor? Ela é constante ou intermitente? Quando começou?
Histórico Médico Pregresso (HMP)
Esta é a etapa mais crítica para a segurança.
Condições Dermatológicas: Histórico de psoríase, eczema, dermatites, infecções cutâneas ativas ou prévias na área a ser tratada. Questionar sobre tendência à formação de queloides ou cicatrizes hipertróficas é mandatório.
Condições Hematológicas e de Coagulação: Investigar anemia, hemofilia ou qualquer distúrbio hemorrágico. Perguntar especificamente sobre o uso de medicamentos anticoagulantes (ex: Varfarina, Rivaroxabana, Apixabana) ou antiagregantes plaquetários (ex: AAS, Clopidogrel).
Condições Cardiovasculares: Histórico de trombose venosa profunda (TVP), tromboflebite, varizes calibrosas, insuficiência cardíaca ou hipertensão arterial não controlada.
Condições Metabólicas: Diabetes Mellitus é um ponto de atenção crucial devido ao risco aumentado de infecções e dificuldades de cicatrização.
Histórico Oncológico: A aplicação sobre ou próximo a áreas com tumores ativos ou em tratamento é absolutamente contraindicada.
Gestação: A ventosaterapia é contraindicada no abdômen e na região lombar de gestantes.
Histórico Alérgico
Questionar sobre alergias a produtos de uso tópico é fundamental, especialmente se a ventosaterapia deslizante for uma opção, devido ao uso de óleos ou cremes.
2. Exame Físico Detalhado
Após a anamnese, o exame físico da região a ser tratada validará as informações e fornecerá novos dados.
Inspeção da Pele
Busca ativa por lesões, feridas abertas, sinais de infecção (calor, rubor, edema), acne ativo, nevos (pintas) suspeitos, hematomas pré-existentes ou qualquer anormalidade que contraindique a aplicação.
Avaliação da presença de varizes, telangiectasias e da fragilidade capilar, especialmente em idosos.
Palpação
Identificação precisa de pontos-gatilho miofasciais, bandas de tensão muscular e áreas de maior rigidez.
Avaliação da elasticidade e turgor da pele. Uma pele muito fina e frágil (dermatoporose), comum em idosos, exige extrema cautela, com sucção mínima e tempo reduzido.
Avaliação Neurológica e Vascular Simplificada
Teste de sensibilidade tátil e dolorosa na área. Pacientes com neuropatia periférica (comum em diabéticos) podem não sentir dor ou desconforto excessivo, aumentando o risco de lesões por sucção elevada.
Verificação de pulsos periféricos, se houver suspeita de insuficiência vascular na extremidade a ser tratada.
3. Raciocínio Clínico e Decisão Terapêutica
Com base na anamnese e no exame físico, o médico integrará os dados para decidir:
Há indicação para a ventosaterapia?
Existem contraindicações absolutas que proíbem o procedimento?
Existem contraindicações relativas que exigem precauções especiais? (ex: paciente anticoagulado pode receber uma sucção muito leve, sem deslizamento e nunca com sangria).
Qual a modalidade mais segura e eficaz para o caso? (Fixa, Deslizante).
Quais parâmetros utilizar? (intensidade da sucção, tempo de aplicação, escolha do lubrificante).
Conclusão
A avaliação clínica pré-aplicação não é um mero formalismo; é o ato que garante a segurança do paciente e a adequação do tratamento. É este processo investigativo que eleva a ventosaterapia de uma simples técnica para um procedimento terapêutico fundamentado, alinhado às melhores práticas médicas.
Referências Bibliográficas
CHI, L. M. et al. The Effectiveness of Cupping Therapy on Relieving Chronic Neck and Shoulder Pain: A Randomized Controlled Trial. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, v. 2016, 7358918, 2016.
AL-BEDAH, Abdullah et al. The medical perspective of cupping therapy: Effects and mechanisms of action. Journal of Traditional and Complementary Medicine, v. 9, n. 2, p. 90-97, 2019.



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