Analgesia Segmentar e a Teoria das Comportas: Modulação da Dor na Medula Espinhal
- Dr. Sergio Akira Horita

- 6 de nov.
- 3 min de leitura

A compreensão dos mecanismos neurofisiológicos da dor é fundamental para a prática clínica de qualquer profissional que lide com o seu manejo. Entre as teorias mais influentes, a Teoria das Comportas da Dor, proposta por Ronald Melzack e Patrick Wall em 1965, oferece um modelo elegante para explicar como estímulos sensoriais não dolorosos podem modular e suprimir a percepção da dor. Este conceito é a base da analgesia segmentar, um princípio amplamente utilizado em técnicas como a acupuntura, a estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS) e o agulhamento a seco.
A Teoria das Comportas: O Portão na Medula Espinhal
A teoria postula que existe um "portão" neurológico no corno dorsal da medula espinhal, especificamente na área conhecida como Substância Gelatinosa, que pode ser aberto ou fechado para modular os sinais de dor que ascendem ao cérebro.
A operação deste portão é determinada pelo equilíbrio de atividade entre dois tipos de fibras nervosas periféricas:
Fibras de Grande Diâmetro (A-beta): São fibras mielinizadas que conduzem rapidamente informações táteis, como toque leve e pressão. Sua ativação tende a "fechar o portão".
Fibras de Pequeno Diâmetro (A-delta e C): São fibras de condução mais lenta que transmitem sinais de dor (nocicepção) e temperatura. Sua atividade tende a "abrir o portão".
Quando as fibras A-beta são estimuladas (por exemplo, por uma agulha de acupuntura, uma massagem ou um eletrodo de TENS), elas ativam um interneurônio inibitório na Substância Gelatinosa. Este interneurônio, por sua vez, inibe a atividade do neurônio de projeção (ou célula T), que é a célula responsável por transmitir o sinal de dor para o tálamo e, subsequentemente, para o córtex cerebral.
Dessa forma, o estímulo tátil "compete" com o estímulo doloroso, e a ativação robusta das fibras A-beta efetivamente fecha o portão para a passagem dos sinais nociceptivos, resultando em analgesia.
Analgesia Segmentar: A Conexão Anatômica
A aplicação clínica deste princípio reside no conceito de dermátomos. Cada segmento da medula espinhal inerva uma faixa específica da pele (dermátomo), bem como músculos (miótomo) e órgãos viscerais (viscerótomo) correspondentes.
Ao inserir uma agulha em um ponto específico de um dermátomo, o profissional estimula predominantemente as fibras A-beta daquele segmento. Este influxo de sinais táteis viaja até o corno dorsal do nível medular correspondente e, conforme a Teoria das Comportas, ativa o mecanismo inibitório.
O resultado é a analgesia segmentar: a dor proveniente de estruturas profundas (músculos, articulações ou vísceras) inervadas pelo mesmo segmento medular é suprimida. Por exemplo, a estimulação de um ponto no dermátomo T4 pode modular a dor de origem torácica ou até mesmo visceral daquele nível.
Implicações Clínicas
Este modelo neurofisiológico valida a precisão anatômica exigida em diversas terapias de dor. A escolha do local de aplicação de uma agulha ou eletrodo não é aleatória; ela visa a ativação de vias neurais específicas para modular a dor em seu primeiro ponto de retransmissão.
Compreender a interação entre a analgesia segmentar e a Teoria das Comportas permite ao profissional otimizar tratamentos, explicando aos pacientes o racional científico por trás do alívio da dor e reforçando a importância de uma abordagem baseada em evidências neuroanatômicas.
Referências bibliográficas:
Melzack, R., & Wall, P. D. (1965). Pain Mechanisms: A New Theory. Science, 150(3699), 971–979.
Kandel, E. R., Schwartz, J. H., & Jessell, T. M. (Eds.). (2021). Principles of Neural Science (6th ed.). McGraw-Hill.
Mendell, L. M. (2014). Constructing and Deconstructing the Gate Theory of Pain. Pain, 155(2), 210–216.
Zhang, Z. J., Wang, X. M., & McAlonan, G. M. (2012). Neural mechanisms of acupuncture for pain control. Journal of F.A.S.E.B., 26(9), 3565-3575.



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