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Acupuntura: Uma Análise Criteriosa das Contraindicações Absolutas e Relativas

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 6 de nov.
  • 3 min de leitura
Contraindicações da Acupuntura: profissional de saúde fazendo um sinal de 'pare' com a mão, simbolizando os limites e a importância da segurança no procedimento

A acupuntura, uma terapia milenar com crescente validação científica, consolidou-se como uma ferramenta poderosa no arsenal terapêutico de diversas especialidades médicas. Sua eficácia no manejo da dor, em distúrbios funcionais e na reabilitação é amplamente reconhecida. Contudo, a segurança e a excelência na prática clínica exigem um conhecimento aprofundado não apenas de suas indicações, mas também de suas limitações e contraindicações.

Este artigo se destina a profissionais de saúde e visa aprofundar o entendimento sobre as contraindicações absolutas e relativas da acupuntura, fornecendo o racional clínico para cada uma delas, com base em diretrizes e evidências atuais.


1. Contraindicações Absolutas

São situações em que a acupuntura não deve ser realizada sob nenhuma circunstância, devido a um risco iminente e inaceitável para a saúde do paciente.


1.1. Recusa do Paciente

Racional: O princípio da autonomia do paciente é soberano. A recusa, após o devido esclarecimento sobre o procedimento, seus riscos e benefícios, deve ser respeitada incondicionalmente. A realização de qualquer procedimento contra a vontade do paciente configura violação ética e legal.


1.2. Agulhamento sobre Lesões Cutâneas Ativas

Racional: É terminantemente proibido inserir agulhas sobre áreas com infecção ativa (bacteriana, fúngica ou viral), feridas abertas, queimaduras ou dermatites em atividade. O agulhamento pode disseminar o agente infeccioso para tecidos mais profundos, causando celulite, abscessos ou até mesmo infecções sistêmicas (BOTELHO; MIN, 2017).


1.3. Agulhamento Direto sobre Neoplasias

Racional: O agulhamento direto em um tumor primário ou metastático é absolutamente contraindicado. Existe o risco teórico de promover a disseminação de células neoplásicas pela corrente sanguínea ou linfática, além do risco de hemorragia em tecidos tumorais, que são frequentemente hipervascularizados e friáveis.


1.4. Emergências Médicas

Racional: A acupuntura não é um tratamento de primeira linha para emergências médicas como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral agudo, abdome agudo, crises convulsivas ou insuficiência respiratória. Nesses casos, a prioridade é o suporte avançado de vida e o tratamento médico convencional imediato. Atrasar o tratamento adequado pode levar a consequências graves e irreversíveis.


2. Contraindicações Relativas

São condições que exigem uma avaliação de risco-benefício criteriosa, precauções especiais ou modificação da técnica. A decisão de tratar deve ser individualizada.


2.1. Gestação

Racional: A gestação é uma das contraindicações relativas mais conhecidas. Certos pontos, especialmente aqueles localizados no abdome inferior e na região lombossacra, são tradicionalmente evitados por seu potencial de induzir contrações uterinas e, consequentemente, o parto prematuro. Pontos distais com ação energética forte, como IG4 (Hegu) e BP6 (Sanyinjiao), também são evitados por precaução (AACP, 2021). No entanto, a acupuntura pode ser usada com segurança e eficácia na gestação para tratar náuseas, vômitos e dor lombar, desde que realizada por um profissional experiente que conheça os pontos proibidos.


2.2. Pacientes com Distúrbios Hemorrágicos ou em Uso de Anticoagulantes

Racional: Em pacientes com hemofilia, trombocitopenia severa ou em uso de anticoagulantes em doses elevadas (ex: varfarina com INR fora da faixa terapêutica), o risco de sangramento e hematoma no local da puntura é significativamente maior. A acupuntura não é absolutamente contraindicada, mas exige uma técnica mais suave, agulhas de menor calibre, evitar agulhamento profundo e aplicar pressão prolongada no local após a retirada da agulha. A avaliação do risco-benefício é crucial (BOTELHO; MIN, 2017).


2.3. Uso de Eletroacupuntura em Pacientes com Marca-passo

Racional: A corrente elétrica da eletroacupuntura pode, teoricamente, interferir no funcionamento de um marca-passo, especialmente os modelos mais antigos e unipolares. A recomendação geral é evitar a aplicação de corrente elétrica em um trajeto que cruze o coração ou passe próximo ao dispositivo. A decisão deve ser tomada em conjunto com o cardiologista do paciente.


2.4. Pacientes com Instabilidade Psiquiátrica Grave

Racional: Em pacientes com psicoses ativas, paranoia severa ou agitação psicomotora, a percepção da agulha pode ser distorcida, gerando reações imprevisíveis, ansiedade extrema ou agressividade. O tratamento só deve ser considerado em ambiente controlado e com o devido suporte da equipe de saúde mental.


2.5. Imunossupressão Severa

Racional: Pacientes com imunodeficiência grave (ex: neutropenia febril, pós-quimioterapia mielossupressora) têm um risco aumentado de infecção. Embora o risco com técnica asséptica adequada seja baixo, ele não é nulo. A decisão de tratar deve ponderar o benefício esperado frente ao potencial risco infeccioso.


Referências bibliográficas:

  1. BOTELHO, Lúcio José; MIN, Li Shih (Coord.). Recomendações em Acupuntura: Dor Pélvica Crônica. Volume 9. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://amab.paginas.ufsc.br/files/2025/08/9-Dor-pelvica-cronica-ISBN.pdf. Acesso em: 06 nov. 2025. MACPHERSON, Hugh; THOMAS, Kate (Eds.). Acupuncture and Moxibustion for Cancer Care: A Clinical Guide. Edinburgh: Elsevier Health Sciences, 2021.

  2. WHITE, Adrian. A cumulative review of the range and incidence of significant adverse events associated with acupuncture. Acupuncture in Medicine, v. 22, n. 3, p. 122-133, 2004.

  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on basic training and safety in acupuncture. Geneva: WHO, 1999.

  4. ZHAO, L. et al. The 2011 survey of acupuncture adverse events in a Chinese hospital. Acupuncture in Medicine, v. 31, n. 2, p. 157-164, 2013.

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