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Acupuntura e Adenosina: O Substrato Bioquímico da Analgesia e Ação Anti-inflamatória Local

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 6 de nov.
  • 3 min de leitura
Diagrama bioquímico mostrando o mecanismo de ação da acupuntura, com a agulha estimulando a conversão de ATP em adenosina no tecido, resultando em analgesia e efeito anti-inflamatório local ao ativar o receptor A1

Além dos robustos mecanismos de ação centrais e espinhais, como a modulação das vias descendentes e a teoria das comportas, a acupuntura desencadeia uma resposta bioquímica fundamental diretamente no local da puntura. Um dos atores moleculares mais importantes neste cenário é a adenosina, um nucleosídeo purinérgico que atua como um potente agente anti-inflamatório e analgésico local. Este mecanismo explica cientificamente o alívio rápido da dor e a redução do edema em afecções musculoesqueléticas agudas.


Da Microlesão à Liberação de ATP

O ponto de partida é o próprio ato da puntura. A inserção e a manipulação da agulha de acupuntura criam uma microlesão tecidual controlada. As células nesse tecido, incluindo queratinócitos, fibroblastos e células musculares, ao serem mecanicamente estressadas, liberam grandes quantidades de Adenosina Trifosfato (ATP) no espaço extracelular.

Embora o ATP possa ser pró-nociceptivo em altas concentrações ao ativar receptores purinérgicos P2X, sua presença no meio extracelular é transitória. Ele serve como o precursor para a molécula-chave: a adenosina.


A Cascata Enzimática: De ATP para Adenosina

No espaço extracelular, o ATP é rapidamente metabolizado por uma cascata de ectonucleotidases (enzimas de superfície celular):

  • O ATP é convertido em Adenosina Difosfato (ADP) pela ecto-nucleosídeo trifosfato difosfo-hidrolase (E-NTPDase).

  • O ADP é então convertido em Adenosina Monofosfato (AMP).

  • Finalmente, e mais importante, a enzima ecto-5'-nucleotidase (também conhecida como CD73) hidrolisa o AMP, liberando a adenosina no meio intersticial.

Estudos demonstram que a manipulação mecânica da agulha (rotação, pistonagem) aumenta significativamente a atividade dessas enzimas, ampliando a concentração local de adenosina em até 24 vezes.


A Ação da Adenosina: Ativação do Receptor A1

Uma vez liberada, a adenosina exerce seus efeitos terapêuticos ao se ligar a receptores específicos na superfície das células adjacentes. Para a analgesia, o receptor mais importante é o receptor de adenosina A1 (A1R), um receptor acoplado à proteína G inibitória (Gi).

A ativação do receptor A1 em terminais nervosos nociceptivos promove:

  • Efeito Analgésico: Inibe a liberação de neurotransmissores excitatórios (como o glutamato) dos neurônios de primeira ordem e causa hiperpolarização da membrana neuronal. Isso efetivamente "silencia" a fibra nervosa no local, diminuindo a transmissão de sinais de dor para a medula espinhal.

  • Efeito Anti-inflamatório: A ativação dos receptores A1 em células imunes, como neutrófilos e mastócitos, inibe a liberação de citocinas pró-inflamatórias (ex: TNF-α, IL-1β) e a degranulação mastocitária. O resultado é a redução do edema, da vasodilatação e da quimiotaxia de células imunes para o local, controlando a resposta inflamatória aguda.


Implicações Clínicas e Terapêuticas

O mecanismo da adenosina fornece um racional bioquímico claro para diversas observações clínicas:

  • Alívio Rápido: Explica por que a acupuntura pode proporcionar alívio da dor quase imediato em condições localizadas, como entorses, tendinopatias e pontos-gatilho miofasciais.

  • Importância da Manipulação: Justifica a necessidade da manipulação da agulha para obter a sensação de De Qi, pois a estimulação mecânica é diretamente proporcional à liberação de adenosina.

  • Interação Farmacológica: Explica por que o efeito analgésico da acupuntura pode ser diminuído por antagonistas da adenosina, como a cafeína, um fato a ser considerado na orientação aos pacientes.


Em resumo, a via da adenosina representa um pilar fundamental da ação da acupuntura, conectando um estímulo mecânico a uma resposta analgésica e anti-inflamatória local, que complementa sinergicamente os efeitos espinhais e centrais da terapia.


Referências bibliográficas:

  1. GOLDMAN, N. et al. Acupuncture-like stimulation induces local adenosine release with analgesic effects. Nature Neuroscience, v. 13, n. 7, p. 883-888, 2010.

  2. LAJTER, I. et al. The effects of purinergic signaling on peripheral inflammation and pain. Pflügers Archiv - European Journal of Physiology, v. 466, n. 4, p. 625-636, 2014.

  3. TAKANO, T. et al. Traditional acupuncture triggers a local increase in adenosine in human subjects. The Journal of Pain, v. 13, n. 12, p. 1215-1223, 2012.

  4. ZYLKA, M. J. Pain-relieving prospects for adenosine receptors and ectonucleotidases. Trends in Molecular Medicine, v. 17, n. 4, p. 188-196, 2011.

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