A Jornada da Ventosaterapia Através dos Séculos: Das Civilizações Antigas à Prática Clínica Moderna
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Quando vemos as marcas circulares da ventosaterapia em atletas de elite, é fácil pensar nela como uma inovação recente. No entanto, estamos observando, na verdade, o ressurgimento de uma das práticas terapêuticas mais antigas e geograficamente difundidas da humanidade. Para o profissional de saúde, compreender essa jornada histórica não é apenas uma curiosidade, mas uma forma de contextualizar uma técnica que sobreviveu ao teste do tempo por sua eficácia empírica.
1. As Origens no Egito Antigo e a Menção em Papiros Médicos
As primeiras evidências documentadas do uso da ventosaterapia vêm do Egito Antigo. O Papiro de Ebers, um dos mais importantes tratados médicos da antiguidade, datado de aproximadamente 1550 a.C., descreve o uso de ventosas para "remover matéria estranha" do corpo. Os egípcios a utilizavam para tratar febres, dores, vertigens e desequilíbrios menstruais, demonstrando uma compreensão precoce de que a aplicação de vácuo na pele poderia influenciar condições sistêmicas.
2. A Adoção pela Medicina Greco-Romana
A prática foi avidamente adotada e refinada na Grécia Antiga. Hipócrates (c. 460 – 370 a.C.), o pai da medicina ocidental, era um defensor da ventosaterapia. Em seus escritos, ele detalha o uso de ventosas de vidro ou bronze para tratar não apenas dores musculoesqueléticas, mas também doenças internas e pneumonias. Os gregos desenvolveram dois métodos principais: um para tratar afecções de órgãos profundos e outro, mais brando, para aliviar dores e espasmos musculares.
3. O Desenvolvimento na Medicina Tradicional Chinesa (MTC)
Paralelamente, a ventosaterapia se consolidava como um pilar da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). O famoso alquimista e médico Ge Hong (281-341 d.C.) oferece uma das primeiras descrições detalhadas em seu manual "Um Manual de Prescrições para Emergências". Na MTC, a ventosaterapia (拔罐, báguàn) é utilizada para mover o Qi (energia vital) e o Xue (sangue) estagnados, sendo aplicada sobre pontos de acupuntura para tratar desde resfriados e problemas respiratórios até dores e paralisias. Inicialmente, utilizavam-se chifres de animais e, posteriormente, copos de bambu e cerâmica.
4. Do Passado ao Presente: O Ressurgimento no Ocidente
A prática permaneceu comum na Europa e no mundo islâmico (onde é conhecida como Hijama) durante séculos. No entanto, com o advento da medicina farmacêutica e cirúrgica nos séculos XIX e XX, a ventosaterapia, assim como outras práticas tradicionais, foi relegada ao campo da "medicina popular".Seu retorno à proeminência no Ocidente é um fenômeno recente, impulsionado pela busca por terapias complementares, pela sua popularização entre atletas de alto rendimento e, mais importante, pelo crescente corpo de evidências científicas que começam a validar seus mecanismos de ação. Hoje, a técnica é integrada por fisiatras, fisioterapeutas e médicos do esporte para acelerar a recuperação, modular a dor e tratar disfunções miofasciais com base em uma compreensão neurofisiológica.
A jornada da ventosaterapia de um antigo ritual de cura a uma técnica clínica moderna é um testemunho de sua resiliência e eficácia. Para o profissional atual, conhecer essa história é reconhecer que estamos nos apoiando em séculos de observação empírica, agora refinados pela lente da ciência.
Referências Bibliográficas
QURESHI, Naseem A. et al. History of cupping (Hijama): a narrative review of literature. Journal of Integrative Medicine, v. 15, n. 3, p. 172-181, maio 2017.
BRITO, G. R. S. A História da Ventosaterapia. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA MEDICINA, 22., 2017, São Paulo. Anais... São Paulo: Associação Paulista de Medicina, 2017. p. 45-51.



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