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Tipo de Onda em Eletroacupuntura: O Pilar da Segurança e Eficácia Clínica

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 27 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura
Representação visual de uma onda bifásica de carga balanceada, ilustrando o princípio de segurança e eficácia no uso da eletroacupuntura para garantir um tratamento sem risco de lesão tecidual por eletrólise

Nos artigos anteriores, exploramos a frequência (Hz) como o código que dita a resposta neuroquímica do corpo, e a intensidade (mA) como o volume que define o alvo terapêutico — sensorial ou motor. Agora, vamos abordar o parâmetro mais fundamental para a segurança do paciente e a qualidade do estímulo: o tipo de onda.

Se a frequência é "o que dizemos" ao sistema nervoso e a intensidade é "o quão alto falamos", o tipo de onda é a "linguagem" em si. Uma escolha inadequada pode não apenas tornar o tratamento desconfortável, mas também potencialmente perigoso. Compreender a física por trás das ondas elétricas é um pré-requisito para uma prática clínica responsável e eficaz.


O Grande Vilão: A Corrente Monofásica e o Risco de Eletrólise

Uma onda monofásica (ou corrente contínua/direta) é aquela em que o fluxo de elétrons ocorre em uma única direção. Isso significa que um eletrodo (agulha) será sempre o polo negativo (cátodo) e o outro será sempre o polo positivo (ânodo).

Mecanismo de Ação (Iônico): Este fluxo unidirecional causa um acúmulo líquido de íons ao redor das agulhas. Íons negativos (ânions, como Cl⁻) se acumulam no polo positivo (ânodo), enquanto íons positivos (cátions, como Na⁺) se acumulam no polo negativo (cátodo).

O Risco Químico: Este acúmulo iônico resulta em uma reação de eletrólise nos tecidos.

  • No ânodo (+), ocorre a formação de ácido clorídrico (HCl), causando uma reação ácida e potencial queimadura química.

  • No cátodo (-), ocorre a formação de hidróxido de sódio (NaOH), causando uma reação alcalina que pode levar à liquefação tecidual.

Aplicação Clínica e Contraindicação: Devido a este risco de lesão tecidual, a corrente monofásica contínua é contraindicada para a eletroacupuntura convencional. Seu uso na medicina é restrito a aplicações muito específicas e de curta duração, como a iontoforese (uso da corrente para "empurrar" medicamentos através da pele), onde o efeito polar é desejado.


A Solução Segura e Inteligente: A Onda Bifásica de Carga Balanceada

Para eliminar o risco de eletrólise, a prática moderna da eletroacupuntura utiliza exclusivamente a onda bifásica. Nesta modalidade, a corrente flui em ambas as direções, alternando a polaridade das agulhas. A onda possui uma fase positiva e uma fase negativa.

  • Mecanismo de Ação (Iônico): Durante a fase positiva, os íons se movem em uma direção. Durante a fase negativa, eles se movem na direção oposta. Se as duas fases são eletricamente balanceadas, o deslocamento iônico líquido ao final de cada ciclo é zero.

  • Segurança Clínica: Como não há acúmulo de íons, não há risco de eletrólise ou alteração do pH tecidual. Isso torna a onda bifásica extremamente segura para tratamentos prolongados, mesmo com intensidades elevadas.


O Padrão Ouro: Onda Assimétrica Bifásica

Dentro das ondas bifásicas, a mais utilizada e estudada é a assimétrica bifásica de carga balanceada. "Assimétrica" significa que a fase positiva e a fase negativa têm formatos diferentes, mas "carga balanceada" significa que a área sob a curva de cada fase é idêntica, garantindo o efeito líquido zero.

  • Eficácia e Conforto: A eficácia na despolarização de um nervo é determinada pela rapidez com que a corrente sobe (a "inclinação" da onda). A onda assimétrica bifásica tipicamente possui uma fase inicial com uma subida rápida e um pico de alta amplitude, o que a torna muito eficiente para ativar as fibras nervosas (Aβ, Aδ, motoras). A segunda fase, de formato diferente, garante o balanço da carga de forma que é percebida como mais confortável pelo paciente.

  • Aplicação Clínica Primária: Esta é a forma de onda padrão na vasta maioria dos equipamentos de eletroestimulação modernos (Eletroacupuntura e TENS). Ela combina o máximo de segurança (balanço de carga) com o máximo de eficácia e conforto (despolarização eficiente e tolerabilidade pelo paciente), permitindo que se utilizem a frequência e a intensidade necessárias para atingir o objetivo clínico, seja ele analgesia ou reabilitação.


Tipo de Onda e Mecanismos Analgésicos: Uma Relação Indireta

É crucial entender que o tipo de onda não determina o mecanismo de analgesia. Os mecanismos (liberação de endorfinas, teoria do portão, etc.), as vias nervosas e os receptores ativados são primariamente ditados pela Frequência (Hz) e pela Intensidade (mA).

O papel do tipo de onda é garantir que o estímulo elétrico possa ser aplicado de forma segura e confortável por tempo suficiente para que os mecanismos terapêuticos desejados ocorram. Uma onda inadequada (monofásica) ou desconfortável limitaria a capacidade do terapeuta de usar a frequência e a intensidade ideais, comprometendo todo o tratamento.


Conclusão: A Tríade da Eletroestimulação Eficaz

A maestria da eletroacupuntura reside no domínio da interação entre seus três parâmetros fundamentais:

  • Frequência: Define o alvo neuroquímico (Qual neurotransmissor?).

  • Intensidade: Define o alvo neural e terapêutico (Quais fibras? Dor ou Reabilitação?).

  • Tipo de Onda: Garante a segurança e a eficiência da entrega do estímulo (Como entregar sem causar dano?).


A escolha de uma onda assimétrica bifásica de carga balanceada não é uma opção, mas sim a fundação sobre a qual um tratamento de eletroacupuntura seguro, ético e baseado em evidências é construído.


Referências Bibliográficas

  1. ALON, Gad. Principles of Electrical Stimulation. In: Nelson RM, Hayes KW, Currier DP (eds). Clinical Electrotherapy. 3. ed. Stamford, CT: Appleton & Lange, 1999. p. 35-90.

  2. ROBINSON, A. Joseph; SNYDER-MACKLER, Lynn. Eletrofisiologia Clínica: Eletroterapia e Teste Eletrofisiológico. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.

  3. JOHNSON, Mark I. Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation: Mechanisms, Clinical Application and Evidence. Reviews in Pain, v. 1, n. 1, p. 7-11, 2007. DOI: 10.1177/204946370700100103.

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