Protocolo Estratégico de Acupuntura para Gonartrose: Uma Abordagem Integrada para Profissionais
- Dr. Sergio Akira Horita

- 11 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

O manejo da osteoartrite (OA) de joelho, ou gonartrose, exige uma abordagem multifacetada, na qual a acupuntura se firma como um pilar de alta eficácia e segurança. Contudo, para além de simplesmente aplicar agulhas em pontos dolorosos, um tratamento de excelência requer um protocolo estratégico, baseado em um diagnóstico preciso segundo a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e integrado ao conhecimento médico.
Este artigo apresenta um framework de protocolo para a gonartrose, fundamentado na diferenciação de síndromes e na combinação de pontos locais, distais e constitucionais, utilizando a nomenclatura de pontos padrão no Brasil. O objetivo não é fornecer uma "receita", mas sim uma estrutura de raciocínio clínico para a construção de um plano terapêutico individualizado.
O Princípio Fundamental: Tratar a Raiz (Ben) e a Manifestação (Biao)
A dor, o inchaço e a rigidez no joelho são a manifestação (Biao) da doença. A raiz (Ben), por sua vez, é a deficiência constitucional subjacente que permitiu o desenvolvimento da condição crônica, geralmente uma fraqueza do Rim e do Fígado (MACIOCIA, 2007). Um protocolo robusto deve, obrigatoriamente, endereçar ambos os aspectos.
Estrutura Terapêutica e Seleção de Pontos
O tratamento será dividido em grupos de pontos, que devem ser combinados de acordo com o diagnóstico específico do paciente.
Grupo 1: Pontos Locais e Adjacentes (Tratando a Manifestação - Biao)
Estes pontos são a base para qualquer tratamento de gonartrose. Eles atuam diretamente na articulação para mover o Qi e o Sangue (Xue), aliviar a dor, reduzir a inflamação e relaxar os tecidos moles.
Seleção Principal:
Xiyan (EX-MI5 - Olhos do Joelho): Dois pontos, medial e lateral ao ligamento patelar. Essenciais para qualquer condição do joelho.
E35 (Dubi): Localizado no "olho" lateral do joelho, um ponto-chave local.
BP9 (Yinlingquan): Ponto mestre para a resolução da Umidade, crucial em casos de inchaço e sensação de peso.
VB34 (Yanglingquan): Ponto de Influência dos Tendões (Hui-Reunião). Fundamental para rigidez articular e dor nos tecidos moles periarticulares.
F8 (Ququan): Localizado na extremidade medial da prega poplítea. Importante para a face medial do joelho e para nutrir o Sangue do Fígado.
E36 (Zusanli): Embora ligeiramente distal, seu efeito potente na tonificação do Qi e Sangue do corpo inteiro e na harmonização do Estômago (canal que passa pelo joelho) o torna essencial.
B40 (Weizhong): Ponto Mestre da região posterior (costas e joelho), indispensável para dor na fossa poplítea.
Grupo 2: Pontos Distais para a Síndrome Bi (Diferenciando a Manifestação)
A seleção aqui dependerá da natureza da dor, conforme a classificação da Síndrome de Obstrução Dolorosa (Bi).
Para Bi Migratório (Predomínio de Vento): Adicionar: VB20 (Fengchi) e B12 (Fengmen) para expelir o Vento do corpo.
Para Bi Doloroso (Predomínio de Frio): Adicionar: Moxabustão em pontos locais e em VC4 (Guanyuan) e E36 (Zusanli) para aquecer os canais e expelir o Frio.
Para Bi Fixo (Predomínio de Umidade): Reforçar o uso de BP9 (Yinlingquan) e adicionar E40 (Fenglong), o grande ponto removedor de mucosidade e umidade sistêmica.
Para Bi Febril (Calor e inflamação aguda): Adicionar: IG11 (Quchi) e IG4 (Hegu), a combinação clássica para clarificar Calor sistêmico.
Grupo 3: Pontos para a Deficiência de Base (Tratando a Raiz - Ben)
Esses pontos fortalecem o corpo e tratam a causa constitucional da degeneração, sendo vitais para resultados duradouros (FOCKS; MÄRKL, 2010).
Para Deficiência do Rim (governa os ossos):
R3 (Taixi): Ponto Fonte do Rim. Essencial para tonificar o Yin e o Yang do Rim.
B23 (Shenshu): Ponto Shu-dorsal do Rim. Tonifica diretamente o órgão.
Para Deficiência do Fígado (governa os tendões):
F3 (Taichong): Ponto Fonte do Fígado. Move o Qi do Fígado e nutre os tendões.
B18 (Ganshu): Ponto Shu-dorsal do Fígado.
Técnicas Complementares
Eletroacupuntura: A aplicação de corrente elétrica de baixa frequência (2-10 Hz para efeito analgésico tipo endorfínico) em pares de agulhas locais (ex: Xiyan medial com Xiyan lateral) pode potencializar significativamente o alívio da dor (VICKERS et al., 2018).
Moxabustão: Essencial em padrões de Frio e Deficiência. A aplicação de calor com o bastão de moxa sobre os pontos locais e pontos de tonificação aquece e move a energia, sendo particularmente reconfortante para o paciente.
Ventosaterapia (Cupping): A aplicação de ventosas (fixas ou deslizantes) na musculatura ao redor do joelho (quadríceps, isquiotibiais) ajuda a liberar a fáscia, mover o Qi e o Sangue estagnados e aliviar a tensão muscular.
Frequência e Duração
Fase Aguda/Inicial: 2 sessões por semana, por 4 a 6 semanas.
Fase de Manutenção: 1 sessão por semana ou a cada 15 dias, reavaliando a resposta.
Curso de Tratamento: Um curso completo geralmente consiste em 10 a 12 sessões. Os benefícios, contudo, já devem ser evidentes após as primeiras 4 a 6 sessões (MANHEIMER et al., 2010).
Conclusão
O tratamento da gonartrose com acupuntura é um processo dinâmico. Este protocolo serve como um mapa estratégico, mas a maestria clínica reside na capacidade de adaptá-lo a cada paciente, sentindo as mudanças em seu pulso, observando sua língua e, o mais importante, ouvindo sua história. Ao combinar o tratamento da manifestação (dor e inflamação) com o fortalecimento da raiz constitucional, oferecemos não apenas alívio sintomático, mas um caminho para uma melhora funcional sustentável e uma maior qualidade de vida.
Referências bibliográficas:
FOCKS, C.; MÄRKL, U. Atlas de Acupuntura: com pontos de gatilho, pontos de acupressura e anatomia. 2. ed. Barueri: Manole, 2010.
MACIOCIA, G. Os Fundamentos da Medicina Chinesa: Um texto abrangente para acupunturistas e fitoterapeutas. 2. ed. São Paulo: Roca, 2007.
MANHEIMER, E. et al. Acupuncture for osteoarthritis of the knee: a systematic review. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 1, CD005476, 2010.
VICKERS, A. J. et al. Acupuncture for Chronic Pain: Update of an Individual Patient Data Meta-Analysis. The Journal of Pain, v. 19, n. 5, p. 455-474, May 2018.



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