Protocolo de Eletroacupuntura para Osteoartrite de Joelho: Uma Abordagem Prática e Baseada em Evidências
- Dr. Sergio Akira Horita

- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

A osteoartrite (OA) de joelho é uma das principais causas de dor crônica e incapacidade funcional no mundo, representando um desafio clínico diário. As abordagens farmacológicas, embora úteis, frequentemente vêm acompanhadas de efeitos adversos e limitações. Neste cenário, a eletroacupuntura (EA) emerge não como uma alternativa, mas como uma poderosa ferramenta terapêutica de primeira linha, com um robusto corpo de evidências que suporta sua eficácia na analgesia e na melhora da função.Neste artigo, vamos detalhar um protocolo clínico prático e eficaz, dissecando a razão por trás de cada parâmetro, conectando a teoria neurofisiológica à aplicação clínica.
O Mecanismo de Ação: Por que a Eletroacupuntura é Eficaz na OA de Joelho?
O sucesso do tratamento da OA de joelho com EA reside na aplicação sinérgica dos três pilares que já discutimos: Frequência, Intensidade e Tipo de Onda.
Analgesia Multinível: A frequência Densa-Dispersa (DD) de 2/100 Hz é a escolha ideal, pois promove a liberação do espectro completo de opioides endógenos. A alta frequência (100 Hz) gera analgesia segmentar rápida na medula (via dinorfinas), enquanto a baixa frequência (2 Hz) estimula uma resposta hormonal mais lenta, porém duradoura, com a liberação de endorfinas e encefalinas.
Teoria do Portão: A intensidade ajustada para um limiar sensorial forte ativa massivamente as fibras A-beta, que "fecham o portão" para a transmissão da dor crônica (conduzida pelas fibras C) na medula espinhal.
Efeitos Locais e Sistêmicos: O agulhamento em pontos locais promove efeitos anti-inflamatórios e melhora a microcirculação, enquanto os pontos distais modulam o sistema nervoso central e a resposta à dor de forma sistêmica.
Protocolo Clínico Detalhado para Osteoartrite de Joelho
Este protocolo é um ponto de partida sólido, baseado em diretrizes e evidências de ensaios clínicos randomizados.
Objetivo Primário: Redução da dor (analgesia), melhora da função articular, diminuição da rigidez matinal e melhora da qualidade de vida.
Parâmetros de Estimulação:
Frequência: Densa-Dispersa (DD) de 2/100 Hz. Esta é a estratégia mais inteligente para dor crônica, combinando analgesia de início rápido com um efeito de longa duração.
Intensidade: Limiar sensorial forte. Aumentar até o paciente sentir uma parestesia clara e forte, mas que seja confortável e abaixo do limiar motor. A contração muscular excessiva não é desejada e pode ser desconfortável em um joelho artrítico.
Tipo de Onda: Assimétrica Bifásica de Carga Balanceada. (Padrão de segurança para evitar qualquer risco de lesão tecidual).
Seleção de Pontos (Acupontos):
Pontos Locais: O foco é a área da dor e da inflamação.
"Olhos do Joelho" (Xiyan, M-LE-16): Dois pontos localizados nas depressões medial e lateral ao ligamento patelar. São cruciais para o efeito analgésico e anti-inflamatório local.
Pontos Ashi: Pontos adicionais de máxima sensibilidade dolorosa ao redor da articulação.
Pontos Distais: Para modular a resposta sistêmica à dor.
E36 (Zusanli): Ponto com forte efeito analgésico e imunomodulador sistêmico. Essencial em quase todos os protocolos de dor em membros inferiores.
BP9 (Yinlingquan): Localizado na depressão póstero-inferior ao côndilo medial da tíbia. É um ponto chave para tratar dor e edema no compartimento medial do joelho, uma área frequentemente afetada na OA.
Duração e Frequência do Tratamento:
Duração da Sessão: 30 minutos. Este tempo é necessário para garantir o pico de liberação dos opioides endógenos de ação mais lenta (β-endorfinas).
Frequência: 2 vezes por semana, por um curso de 8 a 12 sessões. Esta frequência tem se mostrado eficaz para alcançar efeitos cumulativos e duradouros. Após o curso inicial, pode-se passar para uma fase de manutenção (semanal, quinzenal).
O Que Diz a Evidência Científica?
Este protocolo não se baseia em empirismo. Um vasto corpo de pesquisa de alta qualidade valida esta abordagem. Uma meta-análise de dados individuais de pacientes, publicada por Vickers et al. (2018) no The Journal of Pain — um estudo de enorme impacto que reuniu dados de 39 ensaios clínicos com mais de 20.000 pacientes — concluiu que a acupuntura é eficaz para o tratamento da dor crônica (incluindo dor musculoesquelética como a da OA) e que seus benefícios não são explicados apenas pelo efeito placebo.Mais especificamente para a OA de joelho, múltiplos ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas, como a publicada por Paley et al. (2019) na revista Complementary Therapies in Medicine, demonstram que a eletroacupuntura resulta em reduções estatisticamente e clinicamente significativas na dor (medida pela Escala Visual Analógica - EVA) e em melhora funcional (medida por questionários como o WOMAC e o Lequesne).
Link de Evidência (Exemplo de estudo de alto impacto): Vickers, A. J., et al. (2018). Acupuncture for Chronic Pain: Update of an Individual Patient Data Meta-Analysis. The Journal of Pain, 19(5), 455-474.
Conclusão
A eletroacupuntura, quando aplicada com um protocolo bem fundamentado, é uma das intervenções não farmacológicas mais eficazes para o manejo da osteoartrite de joelho. Ela oferece uma combinação de analgesia potente, segurança e melhora funcional, alinhando-se perfeitamente aos objetivos da Medicina Física e Reabilitação. Dominar este protocolo permite ao profissional oferecer uma solução de alto valor para uma queixa extremamente comum, melhorando significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
Referências Bibliográficas:
PALEY, C. A.; JOHNSON, M. I.; TASHANI, O. A. Acupuncture for the relief of chronic pain: a synthesis of systematic reviews. Complementary Therapies in Medicine, v. 47, 102234, 2019. DOI: 10.1016/j.ctim.2019.102234.
VICKERS, A. J., et al. Acupuncture for Chronic Pain: Update of an Individual Patient Data Meta-Analysis. The Journal of Pain, v. 19, n. 5, p. 455-474, 2018. DOI: 10.1016/j.jpain.2017.11.005.
ZHAO, L., et al. The long-term effect of acupuncture for patients with chronic knee osteoarthritis: a 5-year follow-up study. Arthritis Care & Research, v. 69, n. 6, p. 833-841, 2017. DOI: 10.1002/acr.23087.



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