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O Racional da Medicina Tradicional Chinesa no Tratamento da Gonartrose: Uma Perspectiva para Profissionais

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 11 de nov.
  • 4 min de leitura
Infográfico da Medicina Tradicional Chinesa ilustrando os fatores patogênicos — Vento, Frio e Umidade — que causam a Síndrome Bi e a dor na gonartrose

Enquanto a biomedicina descreve a osteoartrite (OA) de joelho como um processo de desgaste da cartilagem articular associado à inflamação sinovial e remodelamento ósseo, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) oferece um paradigma diagnóstico e terapêutico complementar, focado nos desequilíbrios energéticos que levam à manifestação da doença. Para o profissional de acupuntura, compreender este racional é a chave para um tratamento verdadeiramente individualizado e eficaz.

O diagnóstico central para a dor e disfunção articular na MTC é a Síndrome Bi (痹症, Bì Zhèng), que se traduz literalmente como "Síndrome de Obstrução Dolorosa".


A Síndrome Bi: A Raiz da Dor Articular

A premissa fundamental da MTC para a dor é sucinta: "Se não há fluxo livre, há dor; se há fluxo livre, não há dor" (不通則痛, 通則不痛). A Síndrome Bi ocorre quando a circulação de Qi (Energia Vital) e Xue (Sangue) nos canais (meridianos) que atravessam a articulação do joelho é obstruída por fatores patogênicos externos. Na OA de joelho, essa obstrução se manifesta principalmente devido a três fatores: Vento (風, Fēng), Frio (寒, Hán) e Umidade (濕, Shī).

Dependendo do fator patogênico predominante, a Síndrome Bi pode ser classificada, guiando a estratégia de tratamento (MACIOCIA, 2007):

Bi Migratório (風痹, Fēng Bì): Caracterizado por dor que "vagueia" entre diferentes articulações ou muda de localização no próprio joelho. O Vento é o principal patógeno. O tratamento visa "expelir o Vento" e aliviar a dor.

Bi Doloroso (痛痹, Tòng Bì): Apresenta dor fixa, intensa e aguda, que piora com a exposição ao frio e melhora com o calor. O Frio é o agente dominante, pois sua natureza é contrair e estagnar. O princípio terapêutico é "aquecer os canais, dispersar o Frio" e mover o Qi e o Sangue.

Bi Fixo (著痹, Zhuó Bì): Manifesta-se com dor, sensação de peso, inchaço e dormência na articulação, com piora em ambientes úmidos. A Umidade é o fator preponderante. A estratégia é "resolver a Umidade, tonificar o Baço" e restaurar o fluxo nos canais.

Bi Febril (熱痹, Rè Bì): Ocorre quando os fatores patogênicos se convertem em Calor no interior do corpo, ou por invasão direta de Calor. A articulação fica vermelha, inchada, quente e extremamente dolorida. O tratamento busca "clarificar o Calor, resfriar o Sangue" e desobstruir os canais. Na gonartrose crônica, essa condição corresponde às fases agudas de inflamação.


A Deficiência Subjacente: O Terreno Fértil para a Doença

A MTC postula que os fatores patogênicos externos só conseguem invadir o corpo se houver uma fraqueza interna preexistente. Na gonartrose, que é uma condição crônica e degenerativa associada ao envelhecimento, a deficiência de base é quase sempre um componente crucial.

Os dois órgãos (Zang) mais implicados são:

Deficiência do Rim (肾虚, Shèn Xū): O Rim, na MTC, armazena a Essência (Jing), governa o nascimento, o crescimento e o envelhecimento, e comanda os ossos. Uma deficiência da energia do Rim leva ao enfraquecimento da estrutura óssea, tornando-a suscetível à degeneração. A dor é tipicamente surda, crônica e acompanhada por fraqueza nos joelhos e na lombar.

Deficiência do Fígado (肝虚, Gān Xū): O Fígado armazena o Sangue (Xue) e governa os tendões e ligamentos, garantindo sua flexibilidade e nutrição. Quando o Sangue do Fígado é deficiente, os tendões e ligamentos ao redor do joelho se tornam rígidos, frágeis e doloridos, contribuindo para a instabilidade e a dor.

Portanto, um diagnóstico completo em MTC para um paciente idoso com gonartrose poderia ser: "Bi Doloroso por invasão de Frio-Umidade, sobre um fundo de Deficiência do Qi do Rim e do Sangue do Fígado".


Princípio Terapêutico e Seleção de Pontos

O tratamento com acupuntura visa uma dupla abordagem:

Tratar a Manifestação (治标, Zhì Biāo): Aliviar a dor e a inflamação, expulsando os fatores patogênicos e desobstruindo os canais.

Tratar a Raiz (治本, Zhì Běn): Fortalecer o corpo, tonificando a deficiência do Rim e do Fígado para prevenir a progressão da doença.

A seleção de pontos reflete essa estratégia (FOCKS; MÄRKL, 2010):

Pontos Locais: Para mover o Qi e o Sangue diretamente na área afetada.

  • Xiyan (EX-LE5 - Olhos do Joelho): Pontos clássicos para qualquer desordem do joelho.

  • E35 (Dubi), E36 (Zusanli): Pontos do canal do Estômago que cruza o joelho; E36 é um ponto mestre para tonificar o Qi e o Sangue do corpo.

  • BP9 (Yinlingquan): Principal ponto para resolver a Umidade.

  • VB34 (Yanglingquan): Ponto de influência dos tendões, essencial para a rigidez e dor.

  • B40 (Weizhong): Ponto mestre da região lombar e posterior do joelho.

Pontos Distais: Para tratar a causa raiz e expulsar patógenos.

  • Para Deficiência do Rim: R3 (Taixi), B23 (Shenshu).

  • Para Deficiência do Fígado: F3 (Taichong), F8 (Ququan).

  • Para Expelir Vento: GB20 (Fengchi), B12 (Fengmen).

  • Para Dispersar Frio: Aplicação de moxabustão em pontos locais e em VC4 (Guanyuan).


Conclusão

A abordagem da MTC para a gonartrose é um sistema elegante que avalia o paciente de forma holística. O tratamento com acupuntura, guiado por este racional, não apenas alivia a dor e a inflamação locais, mas também fortalece a constituição do paciente, tratando a raiz do problema. Para o profissional, integrar essa perspectiva significa ter mais ferramentas para oferecer um tratamento eficaz, seguro e verdadeiramente centrado no paciente.


Referências bibliográficas:

  1. FOCKS, C.; MÄRKL, U. Atlas de Acupuntura: com pontos de gatilho, pontos de acupressura e anatomia. 2. ed. Barueri: Manole, 2010.

  2. MACIOCIA, G. Os Fundamentos da Medicina Chinesa: Um texto abrangente para acupunturistas e fitoterapeutas. 2. ed. São Paulo: Roca, 2007.

  3. MACIOCIA, G. A Prática da Medicina Chinesa: Tratamento de doenças com acupuntura e ervas chinesas. 1. ed. São Paulo: Roca, 2009.

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