Manejo da Fibromialgia com Eletroacupuntura: Um Protocolo para a Modulação da Dor Centralizada
- Dr. Sergio Akira Horita

- 30 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

A fibromialgia representa um dos maiores desafios na Fisiatria e na Medicina da Dor. Caracterizada por dor musculoesquelética difusa, fadiga, distúrbios do sono e sofrimento emocional, ela não é uma doença do músculo, mas sim uma síndrome de sensibilização do sistema nervoso central. O tratamento, portanto, exige ferramentas capazes de "recalibrar" a percepção da dor. A eletroacupuntura (EA) emerge, com base em evidências científicas robustas, como uma das mais eficazes estratégias de neuromodulação para esta condição.Este artigo detalha um protocolo clínico para o manejo da fibromialgia, estritamente baseado em revisões sistemáticas de alta qualidade, incluindo as que sustentam nossa prática.
Mecanismo de Ação: Por Que a Eletroacupuntura Funciona na Fibromialgia?
Diferente do tratamento para dores localizadas, na fibromialgia o alvo não é uma estrutura específica, mas sim o próprio sistema nervoso central. A EA atua de forma sistêmica para:
Regular Neurotransmissores-Chave: A estimulação de baixa frequência (2-15 Hz) tem demonstrado modular os níveis de serotonina e noradrenalina no sistema nervoso central. Esses neurotransmissores são cruciais para as vias descendentes de inibição da dor, que são disfuncionais em pacientes com fibromialgia.
Liberar Opioides Endógenos: A EA promove a liberação de β-endorfinas e encefalinas, opioides produzidos pelo próprio corpo que têm um efeito analgésico potente e melhoram o bem-estar geral.
Reduzir a Neuroinflamação: Pesquisas sugerem que a EA pode ajudar a diminuir a atividade de células da glia (como micróglia e astrócitos) no cérebro e na medula espinhal. Essas células, quando hiperativas, perpetuam o estado de sensibilização central e a dor crônica.
Protocolo Clínico Detalhado para Fibromialgia
Objetivo Primário: Reduzir a dor generalizada, melhorar a qualidade do sono, diminuir a fadiga, aliviar a rigidez matinal e aumentar o bem-estar global.
Parâmetros de Estimulação:
Frequência: Baixa frequência, entre 2 Hz e 15 Hz. Esta faixa é a mais indicada para promover os efeitos sistêmicos e neuro-hormonais necessários na fibromialgia. Evitar altas frequências, que têm ação mais segmentar.
Intensidade: Limiar sensorial forte e confortável. O objetivo é uma estimulação clara e perceptível, mas que não cause dor ou contrações musculares desconfortáveis.
Tipo de Onda: Assimétrica Bifásica de Carga Balanceada.
Seleção de Pontos (Acupontos): O foco é em pontos com forte ação reguladora do sistema nervoso e que cobrem áreas de dor comum.
Pontos para Regulação Sistêmica:
E36 (Zusanli) + BP6 (Sanyinjiao): Uma combinação clássica para fortalecer a energia (Qi), melhorar a fadiga e regular o sistema digestório, frequentemente afetado na fibromialgia.
IG4 (Hegu) + F3 (Taichong) - "Os Quatro Portões": Usados para promover a livre circulação de Qi e sangue, aliviar a dor e acalmar a mente (efeito ansiolítico).
Pontos para Dor e Sono:
VG20 (Baihui) e Yintang: Pontos no topo e na frente da cabeça para acalmar a mente, melhorar o sono e reduzir a "névoa mental" (fibro fog).
VB20 (Fengchi) e VB21 (Jianjing): Para aliviar a tensão e dor na região cervical e nos trapézios, áreas de grande queixa na fibromialgia.
Duração e Frequência do Tratamento:
Duração: 30 minutos por sessão.
Frequência: 1 a 2 vezes por semana por um curso de 8 a 10 semanas, com reavaliação dos sintomas.
A Base da Evidência: O Que Dizem as Revisões Sistemáticas
As referências que embasam este protocolo são claras em seus achados:
A revisão de Salazar et al. (2017), publicada na prestigiosa revista Pain Physician, concluiu que existe evidência de qualidade moderada para a eficácia da eletroacupuntura no alívio da dor em pacientes com fibromialgia, destacando-a sobre outras formas de eletroestimulação.
A revisão Cochrane de Deare et al. (2013), uma das mais completas sobre o tema, foi taxativa: nas subanálises, a eletroacupuntura demonstrou benefícios sobre o placebo para dor, bem-estar global, sono, fadiga e rigidez, enquanto a acupuntura manual não mostrou a mesma consistência de resultados.
É importante notar que a outra revisão Cochrane, de Johnson et al. (2017), focada em TENS, concluiu pela falta de evidências de alta qualidade para essa modalidade, reforçando, por contraste, a importância de escolher a ferramenta correta – a eletroacupuntura – para o tratamento da fibromialgia.
Conclusão
O tratamento da fibromialgia exige uma abordagem que vá além do alívio sintomático local e atue diretamente nos mecanismos centrais da dor. A eletroacupuntura, fundamentada em evidências de qualidade, se apresenta como uma terapia de primeira linha para a neuromodulação sistêmica. O protocolo detalhado acima, focado em baixa frequência e em pontos de ação reguladora, oferece um caminho seguro e eficaz para reduzir a dor, melhorar o sono e a fadiga, e, finalmente, devolver a qualidade de vida aos nossos pacientes.
Referências Bibliográficas
SALAZAR, A. P. S. et al. Electric Stimulation for Pain Relief in Patients with Fibromyalgia: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Pain Physician, v. 20, p. 15-25, 2017.
DEARE, J. C. et al. Acupuncture for treating fibromyalgia. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 5, art. CD007070, 2013.
JOHNSON, M. I. et al. Transcutaneous electrical nerve stimulation (TENS) for fibromyalgia in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 10, art. CD012172, 2017.



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