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Intensidade do estímulo: Recrutamento Diferencial de Fibras Nervosas

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 27 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura
Ilustração conceitual do ajuste de intensidade (mA) em eletroacupuntura, demonstrando o recrutamento diferencial de fibras nervosas para dois objetivos: o nível sensorial para analgesia e o nível motor para reabilitação muscular

A intensidade do estímulo elétrico determina quais tipos de fibras nervosas serão despolarizadas. Fibras de maior diâmetro e mais mielinizadas possuem menor resistência elétrica e, portanto, são recrutadas primeiro.

  • Fibras A-beta (Aβ): Grande diâmetro, mielinizadas, condução rápida. Responsáveis pelo tato, pressão e vibração.

  • Fibras A-delta (Aδ): Diâmetro intermediário, mielinizadas. Conduzem a dor "rápida" e aguda.

  • Fibras C: Pequeno diâmetro, amielínicas, condução lenta. Conduzem a dor "lenta", crônica e difusa.

  • Fibras motoras (Alfa): Grande diâmetro, mielinizadas, inervam os músculos esqueléticos.

A intensidade do estímulo cria uma hierarquia de ativação, e é com base nela que definimos os dois principais níveis terapêuticos.


1. O Nível Sensorial Forte: Neuromodulação para Analgesia

Este é o nível mais comumente utilizado para o tratamento da dor. A intensidade é aumentada até que o paciente relate uma sensação de parestesia (formigamento, pulsação) forte e clara, mas que permaneça confortável e abaixo do limiar de contração muscular visível.

  • Mecanismo de Ação: Atingir este nível recruta massivamente as fibras A-beta (Aβ). A intensa ativação dessas fibras sensoriais no corno dorsal da medula espinhal inibe a transmissão dos sinais nociceptivos conduzidos pelas fibras A-delta e C. Este é o mecanismo central da Teoria do Portão da Dor de Melzack e Wall. A estimulação elétrica "fecha o portão" para a passagem do sinal de dor para o cérebro.

  • Vias Nervosas e Receptores: A via principal é a ativação das fibras Aβ e seus mecanorreceptores associados. Isso estimula interneurônios inibitórios na medula espinhal, que liberam neurotransmissores como GABA e encefalinas (atuando em receptores opioides locais) para bloquear o sinal de dor.

  • Início e Duração da Analgesia: O efeito analgésico é rápido, geralmente percebido dentro de minutos, pois o mecanismo é primariamente neural e segmentar. A duração, no entanto, é mais limitada, persistindo por algum tempo após o término do estímulo, mas não tão longa quanto a analgesia hormonal da baixa frequência.

  • Aplicação Clínica Primária: Tratamento de dores agudas e crônicas, tanto nociceptivas quanto neuropáticas. É a escolha para lombalgia, cervicalgia, dores articulares (osteoartrite), dor pós-operatória e, crucialmente, em condições de dor neuropática com alodinia, onde a contração muscular seria indesejada e dolorosa. O objetivo é uma neuromodulação sensorial robusta.

Regra Clínica: A intensidade deve ser ajustada para o nível máximo que o paciente tolera confortavelmente, sem causar dor ou contração muscular significativa.


2. O Nível Motor: Neuro-reabilitação e Recuperação Funcional

Para este objetivo, a intensidade é deliberadamente aumentada até ultrapassar o limiar sensorial e atingir o limiar motor, causando uma contração muscular visível, rítmica e suave.

  • Mecanismo de Ação: A intensidade é suficiente para despolarizar diretamente as fibras motoras alfa (α), os nervos que comandam a contração muscular. A contração muscular rítmica gera um intenso feedback proprioceptivo para o sistema nervoso central (SNC), informando ao cérebro sobre o movimento do membro. Este ciclo de estímulo-contração-feedback é crucial para a neuroplasticidade, ajudando a redesenhar os mapas motores no córtex e a restaurar a função.

  • Vias Nervosas e Receptores: A via eferente é a ativação do nervo motor e da junção neuromuscular (receptores de acetilcolina). A via aferente (o "feedback") envolve a ativação de fusos musculares e órgãos tendinosos de Golgi, que informam o SNC sobre o comprimento, tensão e movimento muscular.

  • Efeito Terapêutico: O objetivo não é a analgesia primária, mas sim:

    • Prevenir ou reverter a atrofia por desuso.

    • Melhorar a amplitude de movimento.

    • Reduzir a espasticidade (pela contração de músculos antagonistas).

    • Promover o reaprendizado motor em pacientes com lesões neurológicas.

  • Aplicação Clínica Primária: É a base da reabilitação neurológica. Indispensável em casos de paralisia facial, sequelas motoras de Acidente Vascular Cerebral (AVC), lesão medular incompleta, pé caído (lesão do nervo fibular) e atrofia muscular pós-cirúrgica ou imobilização prolongada.


Conclusão: Intensidade como Ferramenta de Precisão

A intensidade em eletroacupuntura não é um parâmetro único, mas um espectro com dois alvos terapêuticos claros e distintos. A decisão de operar no nível sensorial ou no nível motor depende inteiramente do objetivo clínico.

  • Quer modular a dor? Use o limiar sensorial forte, focando na Teoria do Portão.

  • Quer reabilitar a função? Use o limiar motor, focando na neuroplasticidade e no fortalecimento.

Dominar o ajuste fino da intensidade, em combinação com a seleção correta da frequência, é o que eleva a eletroacupuntura da condição de técnica complementar para uma poderosa e precisa modalidade de tratamento em Reabilitação e da Dor.


Referências Bibliográficas

  1. DESANTANA, Josimari M.; WALSH, Deirdre M.; VANCE, Carol; RAKEL, Barbara A.; SLUKA, Kathleen A. Effectiveness of transcutaneous electrical nerve stimulation for treatment of hyperalgesia and pain. Current Rheumatology Reports, v. 10, n. 6, p. 492-499, 2008. DOI: 10.1007/s11926-008-0080-z.

  2. DOUCET, Barbara M.; LAM, Andrew; HANSEN, Lee. Neuromuscular electrical stimulation for skeletal muscle function. The Yale Journal of Biology and Medicine, v. 85, n. 2, p. 201-215, 2012.

  3. JOHNSON, Mark I. Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation: Mechanisms, Clinical Application and Evidence. Reviews in Pain, v. 1, n. 1, p. 7-11, 2007. DOI: 10.1177/204946370700100103.

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