Frequência em Eletroacupuntura: Decodificando o Código Neural da Analgesia
- Dr. Sergio Akira Horita

- 27 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

No universo da eletroacupuntura, a frequência (medida em Hertz, Hz) não é apenas um número ajustado em um aparelho. É a linguagem fundamental que usamos para nos comunicar com o sistema nervoso. A escolha precisa da frequência determina quais vias neurais serão ativadas, quais neurotransmissores serão liberados e, em última análise, o tipo de resposta analgésica que obteremos. Dominar esse "código neural" é o que separa uma aplicação genérica de um tratamento de neuromodulação verdadeiramente eficaz e personalizado.Neste artigo, vamos desvendar os mecanismos neurofisiológicos por trás das diferentes frequências, fornecendo o conhecimento necessário para tomar decisões clínicas baseadas em evidências.
A Dicotomia Fundamental: Baixa vs. Alta Frequência
A pesquisa, liderada extensivamente pelo Dr. Ji-Sheng Han, demonstrou que o sistema nervoso central responde de maneiras drasticamente diferentes a estímulos de baixa e alta frequência, acionando sistemas neuroquímicos distintos.
1. Baixa Frequência (2-10 Hz): Analgesia Sistêmica e de Longa Duração
Mecanismo de Ação: A estimulação de baixa frequência gera impulsos que são transmitidos ao cérebro (principalmente ao núcleo arqueado do hipotálamo e à glândula pituitária). Isso desencadeia uma resposta neuro-hormonal, resultando na liberação de peptídeos opioides na corrente sanguínea e no líquido cefalorraquidiano (LCR).
Vias Nervosas Utilizadas: O estímulo é conduzido primariamente por fibras nervosas A-delta (Aδ). Essas fibras mielinizadas, de condução relativamente rápida, sinalizam uma dor aguda e bem localizada, e são eficientes em ativar estruturas do tronco cerebral e do cérebro médio.
Neurotransmissores e Receptores Ativados: O principal efeito da baixa frequência é a liberação de β-endorfinas (do hipotálamo) e encefalinas (do cérebro médio). Essas substâncias têm alta afinidade pelos receptores opioides µ (mu) e δ (delta), os mesmos receptores ativados por opioides exógenos como a morfina.
Início e Duração da Analgesia: Como depende de uma resposta hormonal e da circulação sistêmica dos opioides, o início do efeito analgésico é mais lento, levando de 20 a 30 minutos para atingir o pico. No entanto, sua duração é significativamente mais longa, podendo persistir por horas ou até dias após o tratamento.
Aplicação Clínica Primária: É a escolha ideal para o tratamento de dores crônicas, tanto nociceptivas quanto neuropáticas. Condições como lombalgia crônica, osteoartrite, fibromialgia e dor neuropática periférica respondem excepcionalmente bem a este tipo de estimulação devido ao seu efeito analgésico robusto e duradouro.
2. Alta Frequência (50-200 Hz): Bloqueio Segmentar e Rápido
Mecanismo de Ação: A alta frequência atua predominantemente a nível espinhal. Ela ativa interneurônios no corno dorsal da medula espinhal, que por sua vez liberam opioides endógenos localmente, inibindo a transmissão do sinal de dor das fibras C (que conduzem a dor crônica, difusa) para o cérebro.
Vias Nervosas Utilizadas: O estímulo é conduzido por fibras nervosas A-beta (Aβ), que são de grande diâmetro e condução rápida, responsáveis pelo tato e pressão. Sua ativação "fecha o portão" para os sinais de dor no nível da medula, um princípio alinhado à Teoria do Portão da Dor.
Neurotransmissores e Receptores Ativados: O neurotransmissor chave liberado pela alta frequência é a dinorfina, que atua especificamente nos receptores opioides κ (kappa) na medula espinhal. Adicionalmente, esta frequência acelera a liberação de serotonina (5-HT) e noradrenalina, potencializando as vias inibitórias descendentes da dor.
Início e Duração da Analgesia: O efeito é quase imediato, manifestando-se em minutos, pois o mecanismo é primariamente local (segmentar, na medula). Contudo, a analgesia é de curta duração, dissipando-se rapidamente após o término do estímulo.
Aplicação Clínica Primária: É a modalidade de escolha para dores agudas e para analgesia durante procedimentos cirúrgicos ou manipulações dolorosas. Seu efeito rápido a torna uma ferramenta poderosa para o controle imediato da dor.
A Estratégia Sinérgica: Frequência Densa-Dispersa (DD)
Para maximizar os benefícios de ambas as abordagens, utiliza-se a frequência Densa-Dispersa (DD), que alterna automaticamente entre um trem de pulsos de alta frequência (ex: 100 Hz) e um de baixa frequência (ex: 2 Hz). Esta abordagem:
Promove a liberação de todo o espectro de opioides endógenos (encefalinas, endorfinas e dinorfinas).
Previne a tolerância neuronal, que pode ocorrer com a estimulação contínua de uma única frequência.
Garante um efeito analgésico de início rápido e longa duração, tornando-se uma estratégia extremamente eficaz para o manejo de dores crônicas complexas e refratárias.
Para facilitar a consulta, preparei uma tabela comparativa.
Característica | Baixa Frequência (2-10 Hz) | Alta Frequência (50-200 Hz) | Densa-Dispersa (DD) |
Mecanismo Principal | Neuro-hormonal (Sistêmico) | Inibição Espinhal (Segmentar) | Combinado (Sistêmico + Segmentar) |
Vias Aferentes | Fibras A-delta (Aδ) | Fibras A-beta (Aβ) | Ambas |
Neurotransmissores | β-endorfina, Encefalina | Dinorfina, Serotonina, Noradrenalina | Todos os três tipos de opioides |
Receptores Ativados | μ (mu) e δ (delta) | κ (kappa) | Todos os três tipos de receptores |
Início da Analgesia | Lento (20-30 min) | Rápido (minutos) | Rápido |
Duração do Efeito | Longa (horas a dias) | Curta (minutos a horas) | Longa |
Aplicação Clínica | Dor Crônica | Dor Aguda, Procedimentos | Dor Crônica Complexa |
Conclusão
A Frequência como PrescriçãoA escolha da frequência em eletroacupuntura não é uma questão de preferência, mas sim uma prescrição terapêutica baseada em neurofisiologia. Compreender que estamos, de fato, "dialogando" com diferentes sistemas neuroquímicos nos permite sair do empirismo e entrar no domínio da medicina de precisão. Como profissionais, nosso papel é traduzir o diagnóstico clínico para a linguagem das frequências, otimizando os resultados e oferecendo aos nossos pacientes o tratamento mais eficaz e cientificamente embasado possível.
Referências Bibliográficas
HAN, Ji-Sheng. Acupuncture: neuropeptide release and activation of descending inhibitory pathways. Anesthesia & Analgesia, v. 113, n. 3, p. 668-679, 2011. DOI: 10.1213/ANE.0b013e318225c50c.
HAN, Ji-Sheng. Acupuncture and endorphins. Neuroscience Letters, v. 361, n. 1-3, p. 258-261, 2004. DOI: 10.1016/j.neulet.2003.12.019.
ZHAO, Zhi-Qi. Neural mechanism underlying acupuncture analgesia. Progress in Neurobiology, v. 85, n. 4, p. 355-375, 2008. DOI: 10.1016/j.pneurobio.2008.05.004.



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