Aplicações Clínicas da Auriculoterapia: Protocolos Baseados em Evidências para o Manejo da Dor
- Dr. Sergio Akira Horita

- há 2 dias
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A aplicação da auriculoterapia na prática clínica transcendeu o empirismo para se estabelecer como uma robusta técnica de neuromodulação periférica. Para o médico fisiatra e acupunturista, o desafio não é apenas "tratar a dor", mas compreender e aplicar protocolos que possuem um racional neurofisiológico validado. Conforme detalhado na abrangente revisão histórica de Hou et al. (2021), a auriculoterapia evoluiu de observações iniciais para um sistema complexo, com mecanismos que hoje são explorados pela neurociência, envolvendo a modulação de vias de dor e a regulação de processos inflamatórios.Este artigo foca no coração da prática: protocolos baseados em evidências para as indicações mais prevalentes em consultório.
Principais Indicações: Protocolos Clínicos para Dor
A eficácia da auriculoterapia no manejo da dor é suportada por múltiplas revisões sistemáticas e metanálises. A revisão de Asher et al. (2010), por exemplo, já apontava para o potencial da auriculoterapia no controle da dor, um achado que tem sido consistentemente reforçado por estudos mais recentes.
Dor Crônica e Aguda: Lombalgia
A lombalgia é uma das principais queixas em consultórios de fisiatria e medicina da dor. Uma metanálise específica sobre dor crônica nas costas (Moura et al., 2019) concluiu que a auriculoterapia é uma prática promissora, sendo eficaz na redução dos escores de intensidade da dor (p=0,038).
Racional Neurofisiológico: O tratamento visa a inibição segmentar no corno dorsal da medula, a liberação de opioides endógenos e a regulação do tônus muscular paravertebral através do Sistema Nervoso Autônomo (Hou et al., 2021).
Protocolo Base Sugerido:
Pontos Locais/Segmentares: Área da Coluna Lombar e Sacral (na anti-hélice).
Pontos Funcionais: Shen Men: Para analgesia central e modulação do componente emocional da dor.
Simpático: Para promover relaxamento muscular e vasodilatação local.
Rim: Como ponto de suporte constitucional em quadros crônicos.
Dor Crônica e Aguda: Cervicalgia
As cervicalgias, sejam tensionais ou mecânicas, respondem bem à neuromodulação auricular. A inervação do pavilhão auricular (ramos dos nervos Vago, Trigêmio e plexo cervical) cria uma via direta para modular o complexo trigêmino-cervical, uma estrutura chave na fisiopatologia das dores de cabeça e pescoço.
Racional Neurofisiológico: Foco no relaxamento da musculatura do trapézio e esternocleidomastóideo e na modulação da percepção central da dor.
Protocolo Base Sugerido:
Pontos Locais/Segmentares: Área da Coluna Cervical (na anti-hélice), Ponto do Pescoço.
Ponto de Tensão Associado: Ponto do Ombro.
Pontos Funcionais: Shen Men e Tálamo (Subcórtex).
Cefaleias: Enxaqueca (Migrânea)
O tratamento da enxaqueca com auriculoterapia requer uma abordagem que vise a modulação neurovascular. A revisão de Hou et al. (2021) cita estudos específicos sobre a aplicação da auriculoterapia para enxaqueca, destacando seu papel na profilaxia e no alívio das crises agudas ao regular a excitabilidade cortical e o tônus vascular.
Protocolo Base Sugerido:
Pontos Neurovasculares: Ponto Occipital, Ponto Frontal, Ponto Temporal.
Pontos Funcionais: Simpático (para regulação autonômica), Shen Men e Tálamo (para elevar o limiar de dor).
Síndromes Dolorosas: Fibromialgia
A fibromialgia, como um modelo de dor por sensibilização central, exige uma abordagem focada na regulação global do sistema nervoso. Um estudo randomizado (Ruela et al., 2018), embora focado em dor oncológica, reforça a eficácia de um protocolo baseado em pontos de equilíbrio energético (Shen Men, Rim, Simpático) para reduzir significativamente a dor, um princípio aplicável à fibromialgia.
Racional Neurofisiológico: O objetivo é dessensibilizar o SNC, modular o eixo HPA (Hipotálamo-Pituitária-Adrenal) e regular neurotransmissores, conforme discutido nos mecanismos de ação por Hou et al. (2021).
Protocolo Base Sugerido:
Pontos de Regulação Central: Shen Men, Ponto Zero, Tálamo, Rim.
Nota Clínica: A resposta pode ser intensa; iniciar com menos pontos é uma estratégia prudente.
Referências Bibliográficas
ASHER, G. N. et al. Auriculotherapy for pain management: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. The Clinical Journal of Pain, v. 26, n. 6, p. 539-548, 2010.HOU, P.-W. et al. The History, Mechanism, and Clinical Application of Auricular Therapy. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, v. 2021, Article ID 5838270, 2021.
LAM, W. L. et al. Combined electroacupuncture and auricular acupuncture to alleviate pain after gynaecological abdominal surgery: a randomised shamcontrolled trial (abridged secondary publication). Hong Kong Medical Journal, v. 28, supl. 1, p. S27-S30, 2022.
MOURA, C. C. et al. Auricular acupuncture for chronic back pain in adults: a systematic review and metanalysis. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 53, e03461, 2019.
RUELA, L. O. et al. Effectiveness of auricular acupuncture in the treatment of cancer pain: randomized clinical trial. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 52, e03402, 2018.
USICHENKO, T. I.; LEHMANN, C.; ERNST, E. Auricular acupuncture for postoperative pain control: a systematic review of randomised clinical trials. Anaesthesia, v. 63, n. 12, p. 1343-1348, 2008.
ZHOU, Y. et al. Auricular Acupuncture for Perioperative Pain Management: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Journal of Pain Research, v. 18, p. 441-454, 2025.



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