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Acupuntura na Gonartrose: Uma Análise Crítica das Evidências para Profissionais de Saúde

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 11 de nov.
  • 3 min de leitura
Ilustração anatômica do joelho com agulhas de acupuntura aplicadas, demonstrando a estimulação de vias neurais para o tratamento da gonartrose

A osteoartrite (OA) de joelho, ou gonartrose, representa uma das principais causas de dor crônica e incapacidade funcional no mundo, impondo um fardo significativo aos sistemas de saúde e à qualidade de vida dos pacientes. As abordagens terapêuticas convencionais, embora úteis, frequentemente apresentam limitações, seja pela eficácia parcial ou pelo perfil de efeitos adversos, como no caso dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e opioides. Nesse contexto, a acupuntura emerge como uma ferramenta terapêutica não farmacológica robusta, cuja eficácia é sustentada por um crescente corpo de evidências científicas de alta qualidade.

Este artigo visa dissecar os mecanismos de ação e as evidências clínicas que posicionam a acupuntura como um componente valioso no manejo integrado da gonartrose.


Mecanismos Fisiológicos de Ação

A eficácia da acupuntura transcende o efeito placebo, sendo mediada por respostas neuro-humorais complexas e bem documentadas. A inserção de agulhas em pontos específicos desencadeia:

Analgesia por Liberação de Opioides Endógenos: A estimulação de fibras nervosas A-delta e C nos músculos ativa vias neurais ascendentes que promovem a liberação de endorfinas, encefalinas e dinorfinas no sistema nervoso central (medula espinhal, substância cinzenta periaquedutal e hipotálamo). Esses neurotransmissores atuam em receptores opioides (μ, δ, κ), resultando em um potente efeito analgésico.

Modulação Anti-inflamatória: A acupuntura demonstrou capacidade de modular a resposta imune local e sistêmica. Estudos apontam para a redução de citocinas pró-inflamatórias, como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e a interleucina-1 beta (IL-1β), e o aumento de mediadores anti-inflamatórios, como a interleucina-10 (IL-10). Esse efeito é crucial na OA, uma doença com um componente inflamatório sinovial significativo.

Neuromodulação da Dor: A teoria das comportas da dor (Gate Control Theory) de Melzack e Wall é um dos mecanismos implicados. A estimulação das fibras nervosas de grosso calibre (A-beta) pela agulha pode "fechar a comporta" na medula espinhal, inibindo a transmissão de sinais de dor conduzidos por fibras de pequeno calibre (A-delta e C).


Análise das Evidências de Alta Qualidade

Revisões sistemáticas e metanálises, o mais alto nível de evidência, consolidam a eficácia da acupuntura na gonartrose. Uma metanálise de dados individuais de pacientes, publicada por Vickers et al. (2018), incluiu dezenas de ensaios clínicos randomizados (ECRs) e concluiu que a acupuntura é superior tanto ao placebo (sham) quanto à ausência de tratamento para diversas condições de dor crônica, incluindo a OA.

Especificamente na gonartrose, estudos comparativos demonstram que a acupuntura proporciona reduções estatisticamente e clinicamente significativas na dor e melhorias na função física (avaliadas por escalas como WOMAC e VAS). Uma revisão sistemática da Cochrane (MANHEIMER et al., 2010) já apontava para esses benefícios, destacando que a acupuntura é uma opção de tratamento viável.

Estudos mais recentes, como os que investigam protocolos intensivos (GAIPA, 2020) ou técnicas específicas como o agulhamento subcutâneo (CHIU, 2023), continuam a refinar a aplicação e a confirmar os resultados positivos na redução da dor e na melhoria da função em pacientes com OA de joelho. A superioridade em relação aos grupos de controle, incluindo a acupuntura sham (placebo), embora por vezes modesta, é consistente, indicando um efeito terapêutico específico.


Implicações para a Prática Clínica

Com base nas evidências, a acupuntura deve ser considerada uma opção terapêutica de primeira ou segunda linha no manejo multimodal da gonartrose. Sua inclusão no plano de tratamento oferece vantagens claras:

Segurança: Possui um perfil de segurança extremamente alto quando praticada por profissionais qualificados.

Redução do Uso de Fármacos: Pode diminuir a necessidade de AINEs e analgésicos mais potentes, minimizando seus riscos associados (gastrintestinais, renais, cardiovasculares e de dependência).

Melhora Funcional: Ao aliviar a dor e a rigidez, facilita a adesão a programas de reabilitação e fisioterapia, criando um ciclo virtuoso de melhora.

Recomenda-se um protocolo inicial de 1 a 2 sessões semanais por um período de 8 a 12 semanas, com reavaliação da resposta terapêutica para ajuste da frequência. A eletroacupuntura, em particular, tem demonstrado resultados ainda mais expressivos em alguns estudos devido à sua capacidade de fornecer um estímulo mais intenso e padronizado.


Conclusão

A acupuntura não é mais uma terapia "alternativa", mas sim uma prática integrativa com sólidos fundamentos fisiológicos e comprovação clínica robusta para o tratamento da dor e incapacidade na osteoartrite de joelho. Para o profissional de saúde que busca oferecer um cuidado integral e otimizado, dominar ou indicar a acupuntura é alinhar-se às melhores e mais atuais evidências científicas disponíveis.


Referências bibliográficas:

  1. CHIU, P.-E. Agulhamento Subcutâneo de Fu para Dor de Osteoartrite de Joelho. Journal of Visualized Experiments, n. 193, e65299, Mar. 2023.

  2. GRUPO DE ESTUDOS EM ACUPUNTURA (GAIPA). Osteoartrite de joelhos: Protocolos semipadronizados de Acupuntura intensiva (3x/sem.) comparados ao Sham para dor e função física. Universidade Federal do Ceará, 2020. Disponível em: https://gaipa.ufc.br/pt/protocolos-semipadronizados-de-acupuntura-intensiva-3x-sem-comparados-ao-sham-para-dor-e-funcao-na-oa-joelho. Acesso em: 11 nov. 2025.

  3. MANHEIMER, E. et al. Acupuncture for osteoarthritis of the knee: a systematic review. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 1, CD005476, 2010.

  4. VICKERS, A. J. et al. Acupuncture for Chronic Pain: Update of an Individual Patient Data Meta-Analysis. The Journal of Pain, v. 19, n. 5, p. 455-474, May 2018.


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