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Acupuntura na Dor Lombar Crônica: Evidências Científicas e Racional Fisiológico para a Prática Clínica

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 6 de nov.
  • 3 min de leitura
Close-up de agulhas de acupuntura aplicadas na região lombar de um paciente para tratamento e alívio da dor lombar crônica

A dor lombar crônica (DLC) é uma das condições mais prevalentes e incapacitantes na prática clínica global, representando um desafio terapêutico significativo. Dentro do arsenal de tratamentos não farmacológicos, a acupuntura tem emergido não como uma terapia "alternativa", mas como uma intervenção integrativa com um robusto corpo de evidências científicas que suportam sua eficácia e um racional neurofisiológico bem estabelecido.

Este artigo visa desmistificar a acupuntura para o profissional de saúde, apresentando as evidências de mais alto nível e os mecanismos de ação que justificam sua inclusão no manejo da DLC.


As Evidências Científicas: O Que Dizem as Metanálises

A recomendação da acupuntura para dor lombar crônica não é anedótica; ela é fundamentada em pesquisa clínica de alta qualidade. Uma das mais importantes compilações de dados vem de uma metanálise de dados de pacientes individuais publicada por Vickers et al. (2018), que analisou 39 ensaios clínicos randomizados com um total de 20.827 pacientes. Os resultados demonstraram que a acupuntura é eficaz para o tratamento da dor crônica (incluindo a lombar) e seus efeitos persistem ao longo do tempo, sendo significativamente superiores tanto ao placebo (acupuntura sham) quanto à ausência de tratamento.

Corroborando essa visão, o American College of Physicians (ACP), em sua diretriz de prática clínica para o tratamento da dor lombar, recomenda a acupuntura como uma das terapias de primeira linha, ao lado de intervenções como calor superficial, massagem e terapia manual (QASEEM et al., 2017). A inclusão em diretrizes de tamanha relevância atesta o reconhecimento da eficácia e segurança do procedimento pela comunidade médica internacional.


O Racional Científico: Mecanismos de Ação da Acupuntura na Dor

Para o profissional cético, a pergunta fundamental é: "Como funciona?". A analgesia por acupuntura é um fenômeno complexo, multifatorial, que envolve a modulação do sistema nervoso em múltiplos níveis.

Modulação no Nível Medular (Teoria do Portão da Dor): O agulhamento estimula fibras nervosas mielinizadas de grosso calibre (Aβ), cuja informação ascende rapidamente pela medula espinhal. Essa ativação pode inibir a transmissão de sinais de dor conduzidos por fibras de menor calibre, amielínicas (fibras C), em nível do corno dorsal da medula. Este é o princípio fundamental da "Teoria do Portão da Dor", proposta por Melzack e Wall.

Liberação de Opioides Endógenos: Este é um dos mecanismos mais bem documentados. A estimulação por acupuntura ativa estruturas no sistema nervoso central (SNC), como a substância cinzenta periaquedutal (PAG) e o núcleo magno da rafe (NRM), que por sua vez liberam neurotransmissores como a β-endorfina, as encefalinas e as dinorfinas. Esses peptídeos opioides atuam em receptores (μ, δ, κ) no cérebro e na medula espinhal, produzindo um potente efeito analgésico sistêmico (ZHAO, 2008). A analgesia induzida por acupuntura pode, inclusive, ser revertida pelo antagonista opioide naloxona.

Modulação de Neurotransmissores e Vias Descendentes: Além dos opioides, a acupuntura modula as vias descendentes de inibição da dor, envolvendo neurotransmissores como a serotonina (5-HT) e a noradrenalina. A ativação dessas vias inibe a transmissão de sinais nociceptivos na medula espinhal, contribuindo para o controle da dor crônica.

Efeitos Anti-inflamatórios: A inserção da agulha provoca uma microlesão tecidual que desencadeia uma resposta local complexa. Estudos demonstram que isso leva à liberação de adenosina, que atua em receptores A1 locais, produzindo um efeito analgésico e anti-inflamatório. Além disso, a acupuntura pode modular a resposta imune, reduzindo os níveis de citocinas pró-inflamatórias.

Neuroplasticidade e Reorganização Cortical: Em pacientes com dor crônica, ocorrem alterações mal-adaptativas no cérebro. A acupuntura demonstrou, através de estudos de neuroimagem funcional (fMRI), ser capaz de modular a atividade em áreas cerebrais associadas ao processamento da dor, como o córtex somatossensorial, o tálamo e o sistema límbico, promovendo uma "reorganização" cortical que contribui para o alívio da dor a longo prazo.


Conclusão

A acupuntura transcendeu o rótulo de "medicina tradicional" para se firmar como uma intervenção terapêutica com sólida base em evidências e mecanismos de ação neurofisiológicos compreensíveis. Para o profissional que maneja a dor lombar crônica, ela representa uma ferramenta valiosa, segura e eficaz, capaz de melhorar a função e a qualidade de vida dos pacientes, especialmente daqueles que buscam alternativas ou complementos aos tratamentos farmacológicos. A sua integração em um plano de cuidados multidisciplinar é, portanto, cientificamente justificada e clinicamente prudente.


Referências Bibliográficas

  1. QASEEM, A. et al. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Annals of Internal Medicine, v. 166, n. 7, p. 514-530, apr. 2017.

  2. VICKERS, A. J. et al. Acupuncture for Chronic Pain: An Individual Patient Data Meta-analysis. The Journal of Pain, v. 19, n. 5, p. 455-474, may 2018.

  3. ZHAO, Z. Q. Neural mechanism underlying acupuncture analgesia. Progress in Neurobiology, v. 85, n. 4, p. 355-375, aug. 2008.

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