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A Neuroquímica da Acupuntura: Ativação do Sistema Analgésico Opioide Endógeno

  • Foto do escritor: Dr. Sergio Akira Horita
    Dr. Sergio Akira Horita
  • 6 de nov
  • 3 min de leitura

Diagrama das vias de analgesia opioide endógena ativadas pela acupuntura. Ilustra como o estímulo periférico ascende para o hipotálamo e a hipófise, que liberam neurotransmissores no tronco encefálico e na medula

Para além da modulação segmentar na medula espinhal pela Teoria das Comportas, um dos mecanismos de ação mais potentes e cientificamente validados da acupuntura é sua capacidade de recrutar o sistema analgésico natural do corpo. Isso ocorre através da estimulação da liberação de opioides endógenos – as "morfinas internas" do nosso organismo.

Este processo neuroquímico complexo transforma um estímulo periférico (a agulha) em uma resposta analgésica sistêmica e duradoura.


O Estímulo e a Via Ascendente

O processo é iniciado quando a agulha de acupuntura, ao ser inserida e manipulada, ativa principalmente as fibras nervosas de pequeno calibre (A-delta). Diferentemente do toque leve que ativa as fibras A-beta (mecanismo da comporta), a sensação mais profunda e característica do De Qi (sensação de peso, choque ou dormência) está associada à ativação dessas fibras A-delta.

O sinal gerado por essas fibras ascende pela medula espinhal, através do trato espinotalâmico, e se projeta para diversas áreas-chave no cérebro, notadamente:

  • O Núcleo Arqueado do Hipotálamo.

  • A Substância Cinzenta Periaquedutal (PAG) no mesencéfalo.


A Liberação Central de Opioides Endógenos

A chegada do sinal a essas estruturas cerebrais desencadeia uma cascata de eventos neuro-hormonais:

  • Beta-Endorfinas (via Hipotálamo-Hipófise): A ativação do Núcleo Arqueado estimula a glândula hipófise (pituitária) a liberar beta-endorfinas na corrente sanguínea e no líquido cefalorraquidiano (LCR). A beta-endorfina é um peptídeo opioide extremamente potente, com forte afinidade pelos receptores mu (μ), os mesmos receptores ativados pela morfina. Sua circulação sistêmica promove uma analgesia generalizada e uma sensação de bem-estar.

  • Encefalinas e Dinorfinas (via Sistema Descendente de Inibição da Dor): Paralelamente, a ativação da PAG e do Núcleo Magno da Rafe (NRM) na medula oblonga (tronco cerebral) aciona o sistema descendente de inibição da dor. Este sistema projeta-se para o corno dorsal da medula espinhal e atua liberando neurotransmissores inibitórios diretamente no "portão" da dor. Os principais são:

  • Encefalinas: Liberadas por interneurônios no corno dorsal, atuam em receptores delta (δ) e mu (μ) pré-sinápticos para inibir a liberação de neurotransmissores excitatórios como a Substância P e o glutamato a partir das fibras nociceptivas (A-delta e C).

  • Dinorfinas: Também liberadas na medula espinhal, agem primariamente em receptores kapa (κ), contribuindo para a analgesia em nível espinhal, especialmente em contextos de dor crônica ou inflamatória.


O Efeito Combinado: Uma Analgesia Robusta

O resultado final é um bloqueio duplo e sinérgico da dor:

  • Em Nível Espinhal: A liberação de encefalinas e dinorfinas pelo sistema descendente inibe a transmissão do sinal de dor da periferia para o cérebro.

  • Em Nível Supraspinal e Sistêmico: A liberação de beta-endorfinas altera a percepção da dor no cérebro e induz uma analgesia corporal difusa.


Este modelo explica por que os efeitos da acupuntura podem perdurar por horas ou dias após a sessão e por que seus benefícios não se limitam apenas à área tratada. A técnica efetivamente "sequestra" e potencializa as vias que o próprio corpo desenvolveu para controlar a dor.


Referências bibliográficas:

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