A Jornada da Eletroacupuntura: Da Antiguidade à Neuromodulação Moderna
- Dr. Sergio Akira Horita

- 26 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Hoje, a eletroacupuntura é uma ferramenta indispensável na medicina física, reabilitação e no manejo da dor, representando uma síntese sofisticada entre a sabedoria ancestral da acupuntura e os avanços da neurociência. Mas como essa fusão fascinante de agulhas milenares e correntes elétricas surgiu? Sua história é uma jornada notável, que começa não em laboratórios, mas nas águas do Mediterrâneo, e evolui através de séculos de curiosidade científica e inovação clínica.
Os Primórdios: A Eletricidade da Natureza como Terapia
Muito antes da invenção de baterias ou geradores, a humanidade descobriu uma fonte de eletricidade viva: os peixes elétricos. Registros históricos mostram que, já no século I d.C., médicos romanos como Scribonius Largus utilizavam o peixe-torpedo (uma espécie de raia elétrica) para tratar dores de cabeça e gota.
O método era direto: o peixe vivo era posicionado sobre a área dolorida, como os pés de um paciente com gota, até que a sua descarga elétrica natural (que pode chegar a 200 volts) entorpecesse a região. Esta pode ser considerada a primeira forma de eletroterapia da história, uma abordagem empírica que já reconhecia o poder da eletricidade para modular a dor, ainda que seus mecanismos fossem um completo mistério.
O Século XVIII e a "Faísca da Vida"
A verdadeira revolução começou com o domínio da eletricidade no século XVIII. Cientistas como Luigi Galvani, com seus famosos experimentos sobre a "eletricidade animal" em pernas de rãs, e Benjamin Franklin, desvendaram a natureza da corrente elétrica. Imediatamente, a comunidade médica começou a explorar seu potencial terapêutico.
Nesse período, a "eletroterapia" consistia na aplicação de correntes elétricas ao corpo por meio de eletrodos úmidos na pele. O objetivo era restaurar um suposto "equilíbrio elétrico" do corpo, tratando uma vasta gama de condições, de paralisias a quadros de melancolia.
A Invenção da "Électropuncture" na França
O passo decisivo para a criação da eletroacupuntura moderna foi dado na França, no início do século XIX. Em 1825, o Dr. Jean-Baptiste Sarlandière, um médico do exército francês, teve a ideia de combinar as duas tecnologias: a agulha de acupuntura, que já ganhava popularidade na Europa, e a estimulação elétrica.
Ele desenvolveu um dispositivo que permitia aplicar uma corrente elétrica diretamente através de agulhas inseridas no corpo. Sarlandière batizou sua técnica de "électropuncture". Seu objetivo era tratar condições como reumatismo, dores nevrálgicas e paralisias musculares, concentrando o estímulo elétrico em pontos precisos, algo que os eletrodos de superfície não conseguiam fazer com a mesma eficácia. Essa foi a primeira vez que agulhas e eletricidade foram sistematicamente unidas com um propósito terapêutico claro.
O Século XX: A Sistematização na China e a Validação Científica
Apesar da inovação francesa, a eletroacupuntura só atingiu sua maturidade e ampla disseminação no século XX, na China. A partir da década de 1950, em um esforço para integrar a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) com a medicina ocidental, pesquisadores chineses começaram a estudar a acupuntura com o rigor do método científico.
Eles perceberam que a estimulação manual das agulhas era difícil de padronizar e quantificar. A introdução de um estímulo elétrico, com frequência e intensidade controláveis, oferecia uma solução. A eletroacupuntura permitia uma estimulação contínua, objetiva e reprodutível, eliminando a variabilidade do terapeuta.
O grande salto veio nas décadas de 1960 e 1970, com o desenvolvimento da "anestesia por acupuntura" para procedimentos cirúrgicos. Pesquisas intensivas sobre seus mecanismos de ação levaram à descoberta fundamental de que a estimulação elétrica em pontos de acupuntura induzia a liberação de peptídeos opioides endógenos, como as endorfinas e encefalinas, pelo sistema nervoso central.
Essa descoberta foi um divisor de águas. A eletroacupuntura deixava de ser uma técnica empírica para se tornar um método de neuromodulação com uma base neurofisiológica sólida e comprovável.
A Eletroacupuntura Hoje: Neuromodulação de Precisão
Hoje, a eletroacupuntura é uma ferramenta de alta tecnologia. Os dispositivos modernos permitem ao médico controlar com exatidão a frequência (Hz), a intensidade (mA), a largura de pulso e o tipo de onda (como a assimétrica bifásica, que garante segurança).
Sabemos que diferentes frequências ativam diferentes vias neurais e liberam diferentes neurotransmissores, permitindo-nos personalizar o tratamento:
Baixas frequências (2-10 Hz) para analgesia de longa duração em dores crônicas.
Altas frequências (50-200 Hz) para um bloqueio rápido da dor aguda.
Frequências mistas (DD) para um efeito analgésico de amplo espectro.
Sua aplicação se expandiu enormemente, indo do manejo de dores musculoesqueléticas e neuropáticas à reabilitação de paralisias pós-AVC, tratamento da espasticidade e até mesmo modulação de funções autonômicas.
Conclusão: Uma Jornada da Observação à Evidência
A história da eletroacupuntura é a personificação da evolução da medicina: uma jornada que partiu da observação empírica da natureza (o peixe-torpedo), passou pela engenhosidade experimental do século das luzes, e culminou na validação científica rigorosa do século XX.
O que começou como uma "faísca" de curiosidade é hoje uma das mais poderosas técnicas de neuromodulação periférica, uma ponte elegante e eficaz entre a tradição e a inovação, oferecendo alívio e recuperação funcional para milhões de pacientes em todo o mundo.
Referências Bibliográficas
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